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“Pose”, Dia da Visibilidade Trans e o futebol

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poseonfx – Instagram

Hoje, dia 29 de janeiro, é celebrado no país o Dia da Visibilidade Trans (transexuais, transgêneros, travestis, etc.). Celebrado em termos, porque o Brasil lidera o ranking de países que mais assassinam pessoas trans no mundo. Segundo dados de um dossiê publicado hoje pela Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), apenas em 2020 foram assassinadas 175 travestis e mulheres transexuais, um crescimento de 41% em relação ao ano anterior, quando foram registrados 124 homicídios. 

Para Bruna Benevides, secretária de articulação política da Antra, circula no Brasil uma narrativa inferiorizante, que defende a submissão da mulher ao mesmo tempo em que incita a violência. Os ataques a pessoas trans se inserem no cenário de aumento da violência contra a mulher no país. Segundo ela, o aumento dessa violência está relacionado ao ambiente político do Brasil, à campanha de ódio e de combate à “ideologia de gênero”. 

Segundo o relatório da Antra, a maioria dos assassinatos (65%) foram de travestis que trabalhavam como prostitutas. O perfil racial das vítimas evidencia o cruzamento do racismo e da transfobia: ao menos 78% das vítimas foram identificadas como pessoas negras (pretas e pardas).

E são justamente as mulheres trans pretas, pardas e latinas, muitas das quais se vendo obrigadas a atuar como prostitutas, que são as principais protagonistas da série Pose, produzida pela FX a partir de 2018 e veiculada pela Netflix no Brasil. A série se passa na cidade de Nova Iorque entre o final dos anos 1980 e início dos anos 1990, abordando a cultura de baile, a comunidade LGBTQI, a epidemia da AIDS e o capitalismo na era Trump.

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Do ponto de vista da representatividade, trata-se de uma série revolucionária. Pose entrará para a história da televisão por reunir o maior elenco de atores transgêneros a aparecer como personagens principais (Indya Moore, MJ Rodriguez, Dominique Jackson, Hailie Sahar, Angelica Ross), além da atuação de Janet Mock, a primeira mulher trans preta a escrever e a dirigir um episódio de uma série de tv. 

Essa mudança começou anos antes, com o protagonismo de atrizes trans nas séries Sense8 (Jamie Clayton) e Orange is the new black (Laverne Cox). Antes disso não era raro ver atrizes cisgêneras (que se identificam com o sexo biológico com o qual nasceu) representando personagens mulheres trans, assim como na questão racial, atores brancos representando negros, asiáticos, indígenas, etc.

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Mas o que é a cultura de baile retratada na série? No primeiro episódio, a personagem Blanca Rodriguez explica isso para Damon, o jovem que acolhe: “Bailes são reuniões de pessoas que não são aceitas em outros lugares. Celebrando uma vida que o resto do mundo não considera digna de celebrar. Existem categorias, o pessoal se fantasia, desfila, tem votação. Troféus.” Na fala de Blanca, as categorias em disputa simulam ou simbolizam a inclusão dessas pessoas na sociedade que as marginaliza: “Autenticidade é tudo. Conseguir se encaixar no mundo branco e hétero, para personificar o sonho americano. Mas nós não temos acesso a esse sonho. E não é por falta de talento”.

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A série narra a competição, nos bailes, entre as casas Abundance, Evangelista e Ferocity, cada uma delas capitaneada por uma mãe. No final do primeiro episódio, Pray Tell, o Mestre de Cerimônias dos bailes, interpretado pelo excelente ator Billy Porter, resume o significado das casas: “Casas são lares para os meninos e meninas que nunca os tiveram. E eles continuam aparecendo, assim como o sol que nasce sempre.” Ou seja, tratam-se de casas de acolhimento para adolescentes e jovens que foram expulsos de suas próprias casas devido a não aceitação de sua orientação sexual ou identidade de gênero por parte de seus pais. 

Embora a série se passe nos Estados Unidos entre as décadas de 1980 e 1990, essa é uma situação corriqueira até hoje, especialmente no Brasil. Casas comunitárias de acolhimento de pessoas LGBTQ constituem importantíssimos espaços de apoio e de moradia nas capitais pelo país afora.

Outras questões atuais e relevantes para o contexto brasileiro tratadas na série são descritas pelo criador da série, Ryan Murphy, como epidemias: a AIDS e a violência contra mulheres trans, acarretando uma expectativa de vida encurtada para as mulheres negras trans. Ao longo dos episódios, acompanhamos a marginalização das pessoas LGBTQI pela sociedade norte-americana, à medida em que a crise da AIDS se agravou no país.

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No primeiro episódio da segunda temporada, Blanca Rodriguez e Pray Tell vão em busca do corpo de um amigo, morto pela AIDS mas enterrado em Hart Island como um indigente numa vala comum, marcada apenas por um número. Impossível não lembrar das cenas que vêm ocorrendo em várias partes do Brasil, das incontáveis valas abertas nos cemitérios e dos enterros sem despedida, relacionados com a pandemia da covid-19. O que a série faz é humanizar os portadores de HIV e os adoecidos pela AIDS e mostrar a importância do engajamento político da comunidade LGBTQI contra os estigmas sociais, contra a invisibilidade da questão e contra a desumanização dos corpos trans por meio da objetificação sexual.

Mas, afinal de contas, o que tudo isso tem a ver com os torcedores de futebol brasileiros? Tem tudo a ver. Ao frequentar os estádios paulistas entre as décadas de 1970 a 1990, aprendi a ser homofóbico, a xingar de “bicha”, “viado”, e a mandar “tomar no cu” os times adversários e suas torcidas, assim como os juízes. Aprendi também a ser racista, a chamar negro de “macaco”. Aprendi a ser machista e misógino, chamando os outros de “filho da puta”. Sei que isso continuou nas décadas seguintes e até hoje são corriqueiros casos de ofensas e agressões de cunho racista ou sexual. Não existe ainda no futebol mundial caso de jogador de futebol que tenha se declarado homossexual. No meio machista que impera no futebol, esse jogador seria massacrado.  O jogador Richarlyson Barbosa, por exemplo, foi boicotado pela torcida do São Paulo, seu próprio time, por uma alegação de terceiros, mesmo se entregando em campo o mesmo ou mais até do que seus companheiros.

Pode ser que alguém argumente que essa violência verbal ou simbólica nada teria a ver com a violência física que vitima cotidianamente mulheres cis e trans, gays e lésbicas. Eu penso que se trata do contrário disso. Tem aquela reflexão do Nelson Mandela, segundo a qual, ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, origem ou religião. Podemos acrescentar: ninguém nasce odiando a outra pessoa pela sua orientação sexual ou por sua identidade de gênero. 

Para odiar, as pessoas precisam aprender. O estádio de futebol é um desses lugares em que o brasileiro aprende a odiar. Mas, se podemos aprender a odiar, podemos também ser ensinados a amar. Ou pelo menos a respeitar quem é diferente. E tentar desconstruir o nosso machismo, a nossa homo-lesbo-transfobia e a nossa masculinidade tóxica. É por isso que sinto que nós, torcedores brasileiros de futebol, temos muito o que aprender assistindo a séries como Pose.

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Comentários

  1. Jô+Miyagui disse:

    Lembro que no meio digital alguns torcedores do São Paulo criaram o Bambi Tricolor. Tinha essa perspectiva de inclusão e luta contra o preconceito. Infelizmente eles desistiram da empreitada por pressão e ameaças. Ainda temos muito a evoluir.

  2. Vera Longo disse:

    Concordo totalmente.
    Eu, que nunca gostei de futebol, principalmente pelo asco e medo que sentia na adolescência, quando tinha que estar exposta aos ônibus lotados, balançados por torcedores em dia de jogo (pelo simples fato de estar caminhando na rua, ou parada num ponto de ônibus), por minha vez, inicio também um processo de desconstrução da imagem horrenda, que muito me atormentou, daquela horda de machos aglomerados, cantando seus hinos agressivos, e batendo no lado de fora da lataria dos veículos como bárbaros, com os corpos crispados quase a se jogar pelas janelas enquanto vomitavam com brutalidade sua misoginia a cada mulher que encontravam pelo caminho.

    Também já tive amigo gay espancado em plena Avenida Paulista, apenas por existir no caminho de torcedores que voltavam do estádio.
    Esse fenômeno que acontecia quando homens se juntavam e nessa situação viravam um corpo só, cuja única identidade parecia ser a idolatria por uma bandeira, me causava repulsa.

    Porém, acredito que esta força tem grande potência de transformação, se bem utilizada. De um tempo pra cá tenho ficado bastante contente em testemunhar o posicionamento e ação de diversas torcidas organizadas em favor da democracia e em defesa da vida.
    Seguimos…

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