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A estrutura racista do futebol brasileiro

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Créditos: Fonte: Acervo Gaviões

Tomando como base o (excelente) livro “Racismo estrutural”, de Silvio de Almeida (2020), faço aqui algumas (brevíssimas) considerações sobre o racismo no futebol brasileiro, bem como sobre as propostas que visam eliminá-lo ou, ao menos, reduzi-lo. O primeiro ponto que me parece importante destacar é que o racismo está edificado dentro da estrutura do universo futebolístico, não devendo, portanto, ser interpretado a partir de uma concepção individualista. Grosso modo, isso significa que ele não é, como muito frequentemente fazem crer jornalistas e outros(as) formadores(as) de opinião, uma “patologia”, uma “anormalidade”, dentro de um universo que seria, essencialmente, não-racista. Em outras palavras, o racismo não é uma ação “acidental” e “antinatural” levada a cabo por pessoas isoladas ou em grupo, que, movidas pelo preconceito e pela irracionalidade, visariam destruir a “boa natureza” do futebol. Não é, portanto, alguma coisa que vem de fora do referido universo, conforme sugerem declarações do tipo: “o torcedor racista não é um torcedor de verdade”. Ao contrário, o racismo é parte intrínseca do universo futebolístico, ou seja, ele marca toda a dinâmica de relações desse universo. Uma dinâmica que confere, ainda que indiretamente, desvantagens e privilégios com base na raça.

Tendo isso em mente, podemos afirmar que o racismo no futebol é, na verdade, um sistema de dominação, que privilegia os interesses das pessoas (sobretudo homens) brancas em detrimento dos interesses das demais (especialmente, negras e indígenas). Um sistema que é garantido por uma série de regras e padrões de conduta que, direta ou indiretamente, dificulta a ascensão dessas últimas e que, consequentemente, bloqueia sua possibilidade de intervir nos cursos dos acontecimentos do universo do futebol. Diante disso, o enfrentamento do racismo no futebol não deve se limitar, como muitas vezes acreditamos, a aplicações de sanções (embora estas sejam obviamente importantes) aos(às) torcedores(as), atletas e dirigentes que pratiquem a injúria racial. Mas deve, necessariamente, envolver práticas que permitam a alteração das referidas regras e padrões e, consequentemente, aumentem a representatividade das minorias raciais nos espaços de poder do universo em questão. Esse aumento, cabe observar, não garante automaticamente o fim do racismo, uma vez que um(a) dirigente negro(a), por exemplo, não necessariamente vocalizará as demandas dos(as) torcedores(as) e atletas negros(as). E, mesmo que o faça, por diferentes razões, talvez, não consiga transformá-las em ações concretas.

De qualquer modo, outro ponto importante para o enfretamento do racismo é, certamente, descontruir os discursos que o naturalizam e o legitimam. Essa desconstrução envolve, entre outras coisas, mostrar justamente as limitações de uma concepção individualista. Afinal, é graças a essa concepção que uma série de mecanismos discriminatórios contra as pessoas negras e indígenas permanecem na penumbra, como os socioeconômicos. A título de exemplo: num contexto em que essas populações ocupam a base da pirâmide econômica da sociedade, como é o caso do brasileiro, a elitização do futebol é uma forma de exclui-las do espetáculo futebolístico. Essa exclusão é evidenciada, por exemplo, quando comparamos fotos do Maracanã de hoje com as de ontem e notamos, com nitidez, o processo de “branqueamento” de suas arquibancadas. A luta antirracista no futebol não pode, assim, ser realizada independentemente de um projeto político de democratização do acesso ao espetáculo futebolístico. Nesse sentido, é impossível não ver certa ingenuidade (ou cinismo) no repúdio moral ao racismo feito por jornalistas que se calam sistematicamente sobre o (alto) valor do preço dos ingressos. Ou, ainda, que nunca problematizam o fato de o futebol ser, cada vez mais, um produto exclusivo da TV fechada (que, em alguns casos, é quem paga seu salário, diga-se de passagem).

Referências bibliográficas

ALMEIDA, Silvio. Racismo estrutural. São Paulo: Sueli Carneiro; Jandaíra, 2020.

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