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Fahrenheit 451, Bolsonaro, futebol e pandemia

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Fahrenheit 451 é um romance distópico escrito por Ray Bradbury e publicado nos Estados Unidos em 1953. Ele foi adaptado para o cinema por François Truffaut em 1966 e em 2018 ganhou nova versão com o filme produzido pela HBO e dirigido por Ramin Bahrani, que contou com o ator afro-americano Michael B. Jordan (de Pantera Negra) no papel do protagonista, o personagem Guy Montag. 451 é a temperatura (em graus Fahrenheit) em que o papel pega fogo e queima, equivalente a 233 graus Celsius. 

O romance apresenta uma sociedade norte-americana do futuro, em que livros são proibidos, opiniões próprias são consideradas antissociais, o pensamento crítico é reprimido e “bombeiros” queimam qualquer livro encontrado. O personagem central é um bombeiro e o livro narra sua desilusão com o ofício de queimar livros e sua virada para se tornar um dos rebeldes guardiões dos escritos literários e culturais. 

No romance, o papel da queima de livros na eliminação de ideias divergentes constitui um alerta contra a censura promovida pelo estado autoritário. Os episódios de queima de livros na Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial e a ascensão do Macarthismo nos Estados Unidos nos anos 1950, que investigou, como uma caça às bruxas, a suposta influência comunista na produção de filmes em Hollywood, levaram Ray Bradbury a escrever o livro. E são justamente as semelhanças dessas situações históricas com as do nosso tempo que tornam essa narrativa atual como nunca. E além disso, significativa para nós, sociedade brasileira.

Desde a eleição de Jair Bolsonaro no Brasil em 2018, e de Donald Trump, dois anos antes, temos presenciado o império das fake news, espalhadas de maneira incontrolável pelas redes sociais, sobretudo pelo WhatsApp. Esse processo corre paralelo com a desqualificação e a negação da ciência e da produção de conhecimento científico e com a disseminação de teorias da conspiração paranóicas, como o “Terra Planismo”, o “Globalismo”, a “ideologia de gênero” e a “ameaça comunista”. Se esses discursos malucos sempre existiram, passaram a ser vocalizados pelas “autoridades máximas” do Brasil e dos Estados Unidos.

Desde que assumiu a presidência, Bolsonaro tem tomado medidas que vêm enfraquecendo a produção científica brasileira, como o corte de bolsas de pesquisa e a nomeação de reitores não eleitos pelas comunidades universitárias. Propôs o aumento da taxação dos livros ao mesmo tempo que zerou a taxação na importação de armas de fogo e abraçou a bandeira dos partidários do Escola Sem Partido, que objetiva a criminalização, a desvalorização,  a interferência por meio da censura e o enfraquecimento da autonomia do trabalho dos professores pelas escolas do país. Em agosto de 2019, Bolsonaro demitiu Ricardo Galvão, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que denunciou aumento expressivo do desmatamento no país em junho do mesmo ano. Para Bolsonaro a divulgação dos dados era propaganda negativa do país. Recentemente ele vetou recursos para a universalização da internet de banda larga em escolas públicas, condição indispensável para a situação semi presencial ou não presencial do ensino imposta pela pandemia.

Além da intimidação aos educadores, essas forças conservadoras têm tentado (e muitas vezes conseguido) censurar exposições e obras de arte. Além disso, o caráter laico (e portanto plural) do Estado tem sido surrupiado com a nomeação de representantes das bancadas da Bala, do Boi e da Bíblia (os BBB) em setores chave da administração federal, fazendo retroceder políticas públicas de proteção às minorias, como povos indígenas e quilombolas, mulheres, população LGBTQI+, afro-brasileiros, moradores das periferias, etc. 

Essa situação toda se tornou ainda mais dramática com a pandemia: além de adotarem uma atitude negacionista com relação à Covid-19 (“isso é só uma gripezinha”), se colocaram contra o distanciamento social, passaram a propagandear remédios ineficazes e que colocaram ainda mais a saúde das pessoas em risco (hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina e azitromicina). Ambos também disseminaram xenofobia e racismo contra os chineses tanto em relação ao vírus quanto à vacina. Mais do que isso, disseminaram desconfiança em relação à própria vacina.

Essa situação toda parece semelhante àquela descrita pelo romance Fahrenheit 451, na qual o estado democrático converte-se em autoritário; a violência contra as minorias e opositores explode; um novo Macarthismo, uma caça ao comunismo inexistente ganha força; o conhecimento, o direito à educação, às artes e às ciências são combatidos e destruídos; opiniões próprias são consideradas antissociais e o pensamento crítico é reprimido. É aí que entra o futebol.

Bolsonaro levanta a taça junto com o time do Palmeiras (EFE/reprodução)

Ao mesmo tempo em que implementa seu projeto de morte, Jair Bolsonaro usa o futebol a seu favor para se “tornar popular” ou, pelo menos, para diminuir a ampla rejeição popular ao seu mandato. 

Reportagem da UOL revelou que desde a campanha eleitoral, Bolsonaro já vestiu mais de 80 camisas de times de futebol do país como autopromoção. Quem não se lembra da foto de Bolsonaro erguendo a taça de campeão brasileiro conquistada pelo Palmeiras no Allianz Parque em dezembro de 2018? No início de 2020, ele levou seus ministros mais populares – Sérgio Moro e Damares – aos jogos do Flamengo no Maracanã. No dia em que o Brasil atingiu 100 mil mortos pela pandemia (8/8/2020), Bolsonaro preferiu comemorar o campeonato paulista conquistado pelo Palmeiras ao invés de solidarizar-se com as vítimas da pandemia. Depois teve ainda a patética transmissão do jogo da seleção brasileira contra o Peru pela TV Brasil em dezembro de 2020, em que a emissora fez elogios públicos ao presidente. 

(Twitter/reprodução)

Recentemente, dois outros incidentes o envolveram com jogadores de futebol famosos. Após ter seu acordo com o Santos suspenso devido à repercussão de sua condenação por estupro na Itália, Robinho se defendeu comparando-se com o presidente: “As pessoas estão me julgando e me atacando igual fazem com o Bolsonaro. Eu não entendo porque estão me atacando assim”, criticou. Já Neymar Jr., após a péssima repercussão da festa de ano novo que iria realizar na Bahia durante o agravamento da pandemia, posou para fotos ao lado de Flávio Bolsonaro e fez chamada de vídeo com o presidente, no evento em que marcou seus pés para serem utilizados na calçada da fama do Maracanã.

Recepção ao ônibus do São Paulo antes do jogo de 18/11 (reprodução)

E quanto ao meu time, o São Paulo Futebol Clube? Mesmo com a proibição da presença de torcida nos jogos durante a pandemia, parte da torcida organizada do tricolor paulista vem se aglomerando na frente do estádio para recepcionar o ônibus dos jogadores em jogos decisivos. Isso aconteceu no jogo contra o Flamengo em 18/11 e voltou a acontecer no dia 30/12 diante do Grêmio. Para driblar eventuais multas e sanções, como por exemplo, por parte do Centro de Vigilância Sanitária, uma das torcidas assim convocou os torcedores: “Não é convocação. Mas a torcida do São Paulo Futebol Clube estará concentrada no portão principal às 17h. Quem me falou foi o tiozinho que vende cachorro quente na frente do estádio”.  Outra torcida organizada do tricolor soltou uma nota no mesmo dia afirmando que não iria participar da recepção ao time “devido ao grande aumento de contágio do vírus”.

Desde novembro as curvas de contágio, internações e falecimentos voltaram a crescer. Espera-se uma explosão de casos e mortes neste mês devido às aglomerações das festas de final de ano. 

Em 14 de dezembro, matéria da Piauí dizia o seguinte: “O Brasil, mesmo com um sexto da população chinesa, teve 38 vezes o número de mortes por Covid-19 do país asiático até o dia 10 de dezembro. Isso significa que, para cada chinês morto com a doença, 38 brasileiros morreram. O país já ultrapassou a marca das 180 mil mortes – e, ao que tudo indica, o cenário não deve melhorar tão cedo.” Menos de um mês depois, vinte mil mortes a mais, totalizando 200 mil mortes no país. No dia em que o Brasil atingiu esse número oficial de mortos (7/1/2021), Bolsonaro declarou que não é um genocida. O jornalista Leonardo Sakamoto assim comentou a declaração: “Se um político chega ao ponto de precisar afirmar publicamente que não é genocida é porque o país que ele governa merece a piedade do resto do mundo”.

O protagonista do romance Fahrenheit 451, Guy Montag,  de censor e destruidor do patrimônio cultural, passa a ser seu protetor, zelando por sua perpetuação. O futebol tem sido apontado como “ópio do povo”, componente de alienação e esquecimento das mazelas, inimigo dos livros… Trata-se de uma falsidade e há opções: sermos bombeiros que ateiam mais fogo,  cúmplices da destruição, da mentira e do genocídio em curso, ou fazermos o contrário disso. 

Podemos disseminar informações qualificadas sobre e pandemia e a vacina; convencer as pessoas a evitar aglomerações desnecessárias; valorizar a produção científica brasileira (a participação do Instituto Butantan na elaboração da Coronavac é a maior prova disso); valorizar a atuação dos profissionais da saúde e do SUS; democratizar o acesso aos livros, filmes e obras de arte; lutar para que os direitos civis de todos os brasileiros sejam respeitados, e não apenas daqueles que concordem com o desgoverno vigente. Bolsonaro e sua turma são os bombeiros que queimam livros, pessoas, a liberdade, a ciência e a verdade. Que as torcidas de todo país repudiem o uso político mesquinho que se faz das camisas de seus times e do uso que se faz do futebol como mascaramento da terrível realidade.

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