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“Cala a boca, negro” x “joga rápido, irmão”

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Créditos:

Gerson e Luiz Eduardo (Lance, reprodução)

Após o eletrizante jogo em que o Flamengo derrotou o Bahia no Maracanã por 4×3 após duas viradas, Gérson, volante flamenguista eleito melhor jogador em campo, acusou ‘Índio’ Ramirez, jogador colombiano do Bahia, de ofensa racial durante a partida, que lhe teria dito: “Cala a boca, negro”. Nas imagens da transmissão televisiva é possível apenas ver o momento em que esse diálogo aconteceu, quando o Flamengo reiniciava a partida após o segundo gol sofrido. “O Ramírez, quando a gente tomou o segundo gol, não me lembro, reclamou do Bruno [Henrique]. E ele falou bem assim para mim: ‘Cala a boca, negro’. Isso eu nunca sofri, em toda a minha carreira profissional, e não aceito. Não aceito. E o Mano, o Mano precisa respeitar“, desabafou o jogador ao canal Premiere. Ele se refere a um bate boca com Mano Menezes, técnico do Bahia demitido após o jogo, no qual Mano insinua que essa acusação consistiria numa malandragem por parte de Gerson. 

Flávio Rodrigues de Souza, o árbitro da partida, fez o seguinte relato do incidente na súmula: “Aos 7 minutos do segundo tempo houve um conflito entre os jogadores sr. Gerson Santos da Silva, de número 8 da equipe do Flamengo, e o atleta da equipe do Bahia de número 15, sr. Juan Pablo Ramírez Velásquez, onde o jogador do Flamengo alega ter sido chamado de ‘negro’ por seu adversário mencionado. Informo que este suposto ato não foi percebido por nenhum membro da equipe de arbitragem no campo de jogo“. A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) abriu um inquérito para apurar a denúncia. Os personagens envolvidos no incidente, Gérson, Índio Ramirez, Mano Menezes e o juiz Flávio estão sendo ouvidos a partir de hoje (22/12/2020).  

Em vídeo publicado pelo canal do Bahia no Instagram, Juan Pablo Ramírez negou que tenha dito qualquer frase racista direcionada a Gerson na partida: “Em nenhum momento fui racista com nenhum dos jogadores. Estava reclamando da lentidão do Flamengo para reiniciar o jogo. Eu não compreendi o que o Gerson me disse e respondi: ‘Joga rápido, irmão’“. Pra complicar ainda mais a situação, Ramirez afirmou que durante a confusão, foi xingado de “gringo de merda” por Bruno Henrique, atacante rubro-negro.

Gerson disse que ouviu “Cala a boca, negro”, enquanto Ramirez afirma ter dito “Joga rápido, irmão”. A equipe de arbitragem da partida alega não ter percebido o ato. Como observado por alguns comentaristas esportivos, seria improvável que Gerson tivesse “inventado” isso, na medida em que isso se constitui num tipo de exposição pública muito desgastante tanto para a vida pessoal como para a carreira do atleta, como por exemplo, no caso do ex-goleiro Aranha do Santos. Ontem em seu twitter, o Esporte Clube Bahia se posicionou de forma acertada e condizente com a hashtag #BahiaClubeDoPovo: “É indispensável, imprescindível e fundamental que a voz da vítima seja preponderante em casos desta natureza“. Mas pode ter acontecido de Ramirez ter falado uma frase e Gerson ter escutado outra. Como seria possível passar esse episódio a limpo? Por meio de um VAR auditivo?

Twitter do Esporte Clube Bahia (reprodução)

A ausência de torcida nos jogos de futebol disputados durante a pandemia trouxe para as transmissões televisivas um dado novo e diferente: a possibilidade de se ouvir plenamente as falas dos jogadores, juízes e sobretudo dos técnicos no campo, sem o ruído da torcida que ordinariamente abafava essas vozes. Narradores reclamam, fazendo graça, da quantidade de palavrões proferidos por técnicos e jogadores e captados pela transmissão. Pra torná-los menos audíveis, ou pra encorajar os jogadores em campo, um som ambiente pré-gravado (e fake) da torcida vibrando num estádio lotado é acionado, não sei se pelo próprio estádio ou pela emissora de televisão, que pelo menos equaliza esse som ambiente dentro da transmissão. Seria melhor assumir as vozes reais dos boleiros, com os palavrões e tudo mais que elas revelam.

Talvez justamente por essa singularidade, a ausência de público presente no estádio e o fato do som ambiente do campo estar sendo gravado por diferentes veículos – emissoras de televisão e de rádio, transmissões pela internet, registro pelo VAR – não seria possível colher todos esses registros audiovisuais do momento em que o diálogo entre Gerson e Ramirez aconteceu? Não seria possível reaver apenas a pista de áudio registrado do campo sem a sobreposição do som da torcida ou com essa camada sonora minimizada? Ou seja, será que nenhum dos microfones posicionados em diferentes lugares e ângulos do estádio conseguiu captar esse diálogo? Com tantas câmeras registrando o jogo, e em alta resolução, não seria possível se fazer uma leitura labial desse diálogo entre os jogadores?

Penso nestas questões técnicas, mesmo sabendo das limitações desses registros enquanto “captura da realidade”, porque essa acusação é muito grave e porque cresce o entendimento social do racismo enquanto parte estrutural de nossa sociedade. Os casos de racismo no futebol raramente resultam em punição para os acusados. E são muitos: só pra ficar em alguns relembrados por matéria de Lance (21/12/2020), do ex-jogador Grafite do São Paulo (2015), de Obina que foi xingado de macaco quando jogava no Atlético Mineiro em 2014, assim como Arouca quando jogava no Santos em 2012, e assim como Yoni Gonzáles do Fluminense em 2019. 

Quarta-feira passada (16/12), Luiz Eduardo, de 11 anos de idade, foi vítima de injúria racial por parte do técnico do time adversário, durante uma partida entre escolas de futebol em Caldas Novas, interior de Goiás. Após deixar o campo chorando, ele contou o ocorrido em vídeo feito pelo time: “O cara falava assim ‘Fecha o preto aí, ó!’ Aí eu aguardei para falar no final com os pais. Falou um ‘tantão’ de vezes“. Um adulto se dirigindo assim a uma criança de 11 anos de idade. É preciso apurar esses casos recentes e punir exemplarmente os perpetradores ao se constatar a veracidade dessas acusações de racismo e injúria racial. O futebol não pode mais ser o lugar da sociedade em que o racismo, o machismo e a homofobia sejam aceitáveis. 

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