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A cultura atrás do gol: as barras e a lógica do aguante

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Créditos: besoccer

Quando assistimos a jogos da Copa Libertadores da América ou da Copa Sul-americana realizados em países de língua espanhola, podemos observar, em diversos pontos das arquibancadas, faixas e bandeiras com a inscrição aguante. Mas o que esse termo significa exatamente? Para responder a essa questão, recorro a obra de autores/as como Pablo Alabarces, Verónica Moreira e José Garriga Zucal e a suas análises sobre as barras argentinas (como se denominam os agrupamentos organizados de torcedores na América Hispânica). De acordo com eles/as, podemos afirmar que, a despeito do seu caráter polissêmico, o referido termo significa, de modo geral, resistir às adversidades. À dor e ao sofrimento. Dentro do movimento de barras (e diria dentro do de torcidas organizadas também), mostrar tolerância à dor é uma forma privilegiada de mostrar virilidade, de se afirmar como “homem de verdade”. A prova dessa tolerância pode ser obtida, dentre outras formas, acompanhando o clube nos momentos e lugares mais difíceis, ingerindo grandes quantidades de bebidas alcoólicas e, principalmente, participando de embates corporais contra torcedores rivais ou contra a polícia.

            Diante disso, não surpreende o fato de o corpo valorizado nesse contexto ser o robusto, o gordo e o marcado. Afinal, a robustez é vista como uma poderosa arma em tais embates. Já a gordura sinalizaria capacidade de ingestão de bebida alcóolica. Por sua vez, as cicatrizem revelariam um histórico de participações nos referidos embates. Além de promover uma forma específica de construir e representar o corpo, a cultura do aguante molda os movimentos corporais. Afinal, no contexto em questão, não correr quando explode uma briga, peitar o torcedor adversário ou, ainda, não abandonar as arquibancadas em momentos de dificuldade (como, por exemplo, quando cai uma tempestade ou quando a torcida adversária atira pedras) são vistos como comportamentos distintivos, que separam o “torcedor de verdade” dos demais.

A cultura do aguante também promove toda uma série de discursos, expressões e formas de falar específicas. No universo das barras, são frequentes os relatos dos embates com outras torcidas ou com a polícia. Vangloriar-se de seus “feitos”, todavia, não faz de um torcedor alguém respeitado. Afinal, para tanto, é preciso prová-los e, para isso, é necessário que os realize diante de seus pares, ou seja, é preciso que tenha um caráter público. Só assim seu “feito” será considerado realmente autêntico e sua virilidade, um fato. No entanto, uma vez que tem de ser permanentemente provada, podendo sempre ser colocada em xeque, podemos dizer que, no universo em questão, a virilidade é algo muito frágil. Afinal, a qualquer instante, pode ser negada. Uma fuga injustificada pode desmoralizar uma “carreira” bem-sucedida na “pista”, por exemplo. Assim, parafraseando Zygmunt Bauman, podemos dizer que se trata de uma virilidade líquida. Uma virilidade que, no entanto, forja, conforme já antecipei, torcedores de corpos, gestos e comportamentos duros. Como toda forma de cultura, a das arquibancadas também tem seus paradoxos e contradições.

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