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O torcedor empobrecido que o estádio expulsou

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Créditos:

Público divulgado no primeiro jogo das finais do Campeonato Paulista de 1980 (Reprodução O Estado de S. Paulo)

Neste sábado, dia 12/12/2020, o São Paulo Futebol Clube elegeu seu novo presidente para o mandato de 2021 ao fim de 2023: Julio Casares, que sucederá Leco, responsável por uma gestão unanimemente espinafrada. No mesmo sábado, o comentarista esportivo Menon publicou no UOL uma coluna intitulada “Salvação do São Paulo é ser um time de massa. Ideia de Casares é um passo”. Mas o São Paulo já não é um time de massa? Precisa fazer o quê para se tornar um time de massa? – me perguntei ao ler o título.

Ao caracterizar o processo eleitoral do tricolor paulista como fruto de um sistema viciado, fechado e que privilegiaria a “gerontocracia”, Menon exalta uma ideia do candidato vencedor da eleição: “No meio de tanta mediocridade, uma grande ideia. Vem do candidato Casares. A garantia de um setor popular, com oito mil lugares custando 50% do ingresso mais caro.”

Atualmente o estádio do Morumbi tem capacidade máxima para 66.795 torcedores. Esses oito mil lugares populares representariam assim apenas 12% da capacidade máxima do estádio. Ou seja, mesmo com a implementação dessa “grande ideia”, 88% do estádio continuaria a formar osetor não popular”. 

Segundo o colunista, isso seria uma tentativa de trazer mais gente ao estádio, para que ele não fique vazio. Mas Menon se exalta e vai além: “A ideia de Casares precisa ser ampliada. Um jogo contra a Ferroviária, por exemplo, é o ideal para que o estádio receba cinco ou dez mil crianças de escolas, creches, da periferia, das favelas, de Jardim Ângela, Marsilac.”

A fala dele é muito expressiva sobre como o ato de frequentar os estádios de futebol em São Paulo passou por um intenso processo de elitização, expulsando milhões de torcedores pobres e da classe média empobrecida das arquibancadas, processo muito parecido com o que ocorreu com o público de cinema da cidade de São Paulo no mesmo período.

Frequentei o estádio do Morumbi do final dos anos 1970 ao final dos anos 1990. Naquela época, nos grandes clássicos, a capacidade do estádio era “muito maior”: no segundo jogo da final do Campeonato Paulista de 1977, entre Corinthians e Ponte Preta, por exemplo, 146.082 torcedores se espremeram no Morumbi, constituindo o maior público de sua história. Nessa época havia uma distinção social no estádio: a numerada superior e a inferior, assim como as cadeiras cativas, eram os setores mais caros, e o povo pobre se acotovelava nas arquibancadas e na geral (o pior lugar do estádio, no mesmo plano e bem atrás do gol). 

9 de outubro de 1977, Corinthians x Ponte Preta (Foto: Arquivo Placar)

Nessa época, o pessoal da periferia e das favelas, do Jardim Ângela e Marsilac, citado por Menon, frequentava estádio do Morumbi, assim como o pessoal do Capão Redondo e do Parque Santo Antônio – na regravação da música Umbabarauma, Mano Brown descreve a emoção de ter assistido à conquista do título do campeonato paulista de 1984 pelo Santos em cima do Timão com gol de Serginho Chulapa na final disputada no Morumbi. Assim como frequentavam o Morumbi os índios Pankararu, que moram na favela do Real Parque e que trabalharam na construção civil da região e na edificação do estádio. Todos eles, junto com milhões de outros torcedores são-paulinos foram expulsos ou deixaram de frequentar o Morumbi com o aumento extorsivo do preço do ingresso a partir da década de 1990.

Segundo matéria da ESPN (05/10/2017), naquela final de 1977 entre Corinthians e Ponte Preta, o ingresso médio em valores atuais, corrigido pelo IPC (Índice de Preços ao Consumidor), era R$ 12,49. Já em 1990, na decisão do Campeonato Brasileiro em que o Corinthians ganhou pela primeira vez o título em cima do São Paulo, o ingresso médio sofreu o que poderia ser considerado o primeiro grande aumento (216%): foi para R$ 33,70. E na Copa do Brasil de 2008, foi para R$ 57,99. Segundo coluna de Emerson Gonçalves, no Globo Esporte (11/04/2013), de 2003 a 2013, o preço dos ingressos mais baratos subiu 300%, período em que a inflação (medida pelo IPCA-IBGE) foi de 73%. Antes da pandemia, bastava assistir as transmissões dos jogos do São Paulo, Palmeiras e Corinthians na Libertadores disputados em seus estádios pra perceber que a elitização dos torcedores é fenômeno geral que atinge todos os times de São Paulo, ao contrário do esquema simplista do senso comum que qualifica as torcidas do Timão e do Tricolor como, respectivamente, dos pobres e dos ricos.

Esse mesmo processo de elitização ocorreu com o ato de frequentar as salas de cinema na cidade de São Paulo. “O cinema é a maior diversão”, dizia o anúncio numa época, dos anos 1930 aos anos 1970, em que o cinema se constituiu como a grande diversão das classes populares e dos pobres. Pra se ter ideia, a capacidade máxima de público do Cine Universo, no Brás, era de 4.320 espectadores. No antigo Cine Niterói, que pesquisei para o meu livro Cinema japonês na Liberdade (2013), cabiam 1.500 pessoas. Ou seja, assim como os estádios de futebol, os cinemas também eram frequentados por uma massa de trabalhadores pobres.

O Cine Universo, no Brás (Acervo da biblioteca da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo)

Com o fechamento dos cinemas de rua nos bairros e cidades do interior nos anos 1980, e abertura das salas Multiplex nos shoppings centers nos anos 1990, o ingresso do cinema ficou cinco vezes mais caro, expulsando também milhões de espectadores das salas de cinema. Nos cinemas de shopping cabem no máximo 300 pessoas. A esses espectadores, assim como a mim (após perder a carteirinha de estudante), restou se relacionar com o cinema por meio das locadoras de vídeo.

Nesse intenso processo de mercantilização e elitização do futebol, o torcedor pobre não deixou de se relacionar com o time: assiste ao jogos por transmissões da tevê aberta, transmissões piratas ou por gatonet, compra camisa oficial “paralela”, assiste programas esportivos, discute com os amigos e acessa o estádio participando de torcidas organizadas. 

Jhonatan com a camisa do São Paulo: nome Hernanes e número 15 tortos (Foto: Reprodução)

Outra questão que contribuiu para essa elitização foi a implementação do Programa Sócio Torcedor, pois a massa empobrecida, que perdeu emprego e renda, não tem condições de assumir um compromisso financeiro mensal ou anual com o clube em troca de desconto no preço do ingresso e preferência de compra. Aliás essa preferência de compra impõe a limitação das bilheterias do estádio funcionarem apenas em jogos em que o sócio torcedor deixa de ir, ou seja, desestimula o torcedor não filiado ao programa ou que não tem acesso à internet para realizar compra online. Ou seja, ainda que Casares consiga implementar o “setor popular”, se ele for destinado a outra modalidade de sócio torcedor, não resolverá a situação.

Em pesquisa de 2014 realizada em 200 municípios, o Datafolha estimou o número de São-paulinos em 16 milhões de pessoas. O São Paulo não precisa SE TORNAR um time de massas, mas se RECONECTAR e INCLUIR de fato a massa da torcida tricolor empobrecida e marginalizada, aquela que o poder econômico expulsou do estádio e que, mais do que qualquer outro setor, representa seu coração.


Link para o clipe de Umbabarauma, com Jorge Benjor e Mano Brown:
https://www.youtube.com/watch?v=YQOOzvwW2Wk

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Comentários

  1. mm Jô Miyagui disse:

    Eu tô de saco cheio de ouvir que o SPFC é time de elite (o que não é verdade). Todos os times têm torcedores ricos e pobres. Mesmo que modesta, é importante a ideia de trazer os mais pobres para os estádios. Não pra dizer que o SPFC tem mais torcedores de tal ou qual classe social. É apenas uma questão de inclusão social.

    1. Alê Kishimoto disse:

      Pois é Jo, esse papo do Corinthians ser o time dos pobres e progressistas, enquanto que o São Paulo, o time dos “bandeirantes paulistas”, ou seja, dos ricos e reacionários, é uma visão totalmente deturpada das coisas, um indício talvez da desorientação política por parte das esquerdas. Como alcançar os excluídos dos estádios e do mercado de consumo? Acho que isso é um desafio até para este blog e nossas colunas.

  2. LUIS+ROBERTO+DE+PAULA disse:

    Excelente artigo, Alexandre. Em tempo de achismos e negacionismos, dados são fundamentais. E com um ótimo mote para uma pesquisa que coloque lado a lado o processo de elitização do futebol e dos cinemas. Posso dizer também com tranquilidade que entre a massa palmeirense (+- 13 milhoes), há pobres, há classe média e há ricos. E, assim como no caso do Tricolor, os palestrinos pobres foram afastados dos estádios (e dos cinemas). E faz tempo. abraços

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