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Conte sua história | O Torcedor em sua forja

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Créditos: Fortaleza EC entrando no gramado com as bandeiras de bambus em Campo, Começo da década de Ouro / Acervo: Neto Pontes.

Eu tinha uns oito anos, 1999. Era domingo e minha família toda foi almoçar na casa do meu padrinho, um dos meus tios paternos. Ele é o maior torcedor do Fortaleza que conheço. Na entrada da casa tinha uma bandeira enorme, e nas prateleiras, vários objetos tricolores.

Entre um samba e uma bossa nova, entoava o hino do Rei Leão do Pici e depois do almoço só tocavam as marchinhas do Jackson de Carvalho. Mesmo com a relutância dos meus pais, que não são simpáticos a estádio até hoje, fomos todos juntos ao Presidente Vargas.

O clima carnavalesco estabelecido nas ruas ao redor do estádio me deixou muito a vontade. Toda aquela movimentação, aquele cheiro de carne, suor, pólvora dos fogos, os gritos, as conversas, as músicas, tomavam-me os sentidos. Antes mesmo de atravessar a rua já estava envolvido em uma dinâmica social muito particular daquele espaço e das grandes festas do calendário.

Não era um jogo de grande público e chegamos bem cedo, então passar pela catraca não foi um problema. Lembro da cara de espanto que minha mãe e minhas tias fizeram ao ver uns caras mijando no muro da entrada. Naquela época o estádio era um espaço mais opressor ainda para as mulheres.

Embaixo da arquibancada o cinza era predominante e os gritos, os cheiros, os contatos, mais intensos. Caminhamos em direção ao campo e, como em um portal que leva a uma ruidosa dimensão, passamos pelo acesso à arquibancada. A imensidão verde, viva, envolta por aquela muralha de concreto, povoada por centenas, dava espaço a outras centenas que atravessavam que nem eu os portais.

Entramos de frente às cabines da imprensa, no meio do estádio. Acompanhei os adultos, que seguiam para a esquerda. Ao passo infantil, admirado com o tal evento, vagarosamente íamos em direção ao setor que ficava atrás do gol, logo do lado esquerdo da TUF. Como chegamos cedo, a maioria da torcida ainda estava entrando no estádio. Tal qual um imã, meu olhar foi atraído pelo grupo que subia a arquibancada com os instrumentos percussivos.

Os batuques sempre me encantaram, seja no carnaval, no terreiro, no maracatu, no samba ou no funk. Ali no estádio tudo se mistura, inclusive o ritmo das músicas que conduzem o rito futebolístico. A arquibancada foi sendo preenchida e a Bateria no centro da multidão que ia se formando, saia das minhas vistas. Quando começaram a tocar, não conseguia ver os ritmistas, só ouvia as batidas.

No campo, as movimentações para o início da partida. Na extremidade esquerda do alambrado do PV havia uma porta que dava acesso ao campo. Meu tio tira a camisa, coloca em mim e me leva para lá. Outras crianças esperavam o portão ser aberto para entrarem com os jogadores, enquanto eu só conseguia olhar para TUF. O alvoroço infantil distraiu os adultos. Ao nos permitirem entrar em campo, sem exitação, me desloquei para a frente do gol, atraído por aquela massa humana em pleno movimento cinético.

Não sei quanto tempo fiquei ali admirado com tamanho caos. Mas lembro de me perguntar o que fazia com que aquelas pessoas se empenhassem em estar ali, com aquela música, com aquela fumaça dos sinalizadores, com os fogos e tantos movimentos sincronizados. Do nada, alguém me tira de lá e nunca mais parei de me fazer esses questionamentos e de olhar os Leões da TUF.

*Forja é o forno que aquece metal de modo que possa ser moldado.

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Comentários

  1. Maria Paz Colares disse:

    Que texto lindo . Descrito com sentimento, com uma paixão ainda adormecida , mas pulsante.
    Relembrar aqueles momentos com tamanha intensidade, demonstra o quão foram determinantes para o torcedor, o colaborador e o fiel ” escudeiro ” que você é.
    Parabéns pela sua determinação, pela força de vontade de tornar o Fortaleza e seus seguidores o maior club e a mais responsável torcida !

  2. Ellis Mário disse:

    São as memórias que nos conduzem a uma viagem de autoconhecimento, e nesse caminho de formação de saberes cruzamos com os caminhos dia outros. Parabéns pela lembrança escrita que faz a gente enxergar tudo o que contam as palavras.

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