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O Vovô Coxa

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Créditos: Coritiba Football Club

Se clube de futebol é identidade, como afirmei no meu primeiro texto publicado aqui no Atrás do Gol, haverá elementos culturais que conformam essa identidade.

Assim ocorre com o hino oficial, o perfil da torcida, seu comportamento, seus adereços, o estádio, as canções entoadas, as características históricas dos planteis, dentre outros traços que, de tantos, levam a memória à exaustão.

No Brasil, importa falar também dos mascotes. Segundo a melhor definição, mascote é “objeto ou animal muito estimado por uma pessoa ou por um grupo de pessoas”. Claro que há uma razão de ser para que aquele grupo estime aquela pessoa ou o animal, e que isso está ligado à identidade daquele coletivo.

Tão ligado que não precisamos dizer qual clube de futebol é o urubu, qual é o peixe, a macaca, o saci, o galo, a raposa, o timbu, a cobra-coral ou a gralha. Cada mascote conta uma história e revela um pouco sobre o emaranhado de indivíduos que formam uma torcida, a qual forma um clube de futebol.

Aproveito para fazer um apelo: chega de mascote leão. A esmagadora maioria dos clubes brasileiros o adota como mascote e, excetuando o Sport, que conseguiu construir uma identidade em volta do felino, revelam uma falta de criatividade e identidade que torna monótono um fenômeno com alto potencial. O mesmo pode ser dito sobre o clube da Baixada, que revela sua falta de identidade ao ter tido ao menos três mascotes, sem ter emplacado nenhum. Cresci ouvindo que os mascotes seriam o Cartola (o que revela traços da “identidade” do clube), o furacão (isso lá é mascote?), e, agora, a “família furacão”, com o Capitão Furacão, a Guria Furacão, e demais membros.

Chega de alfinetadas, vamos ao que interessa: o Coritiba. O clube, muito ligado à sua história, preserva há mais de 60 anos o mesmo mascote: o Vô Coxa. Quando criança, tinha clara a explicação do porquê temos um avô como mascote. O Coritiba é o clube paranaense mais antigo ainda em atividade, havendo fontes que o apontam como o clube mais antigo a ser fundado no estado, ao afirmar que os anteriores – como o Clube de Foot Ball de Tiro Pontagrossense, formado por trabalhadores do American South Brazilian Engineering Co., e que foi o adversário na primeira partida do alviverde em 1909 – não se tratavam de clubes de futebol, por mancarem de continuidade, estrutura, e outros critérios.

CURVA 1909 on Twitter: "Bandeira do Vô Coxa tocando murga (tradicional  instrumento de barra brava) em comemoração de coxas brancas nos anos 40.…  https://t.co/6Yw7ODO2kH"
Fonte: https://twitter.com/curva1909/status/978400928511479810

Mal sabia eu que, apesar da história encaixar muito bem, outra é a razão da escolha do Vô Coxa como mascote do Coritiba: a verdade é que o Vô Coxa realmente existiu, era uma pessoa de carne e osso, e representa muito sobre a identidade coritibana.

O Vô Coxa chamava-se Max Kopf. Fascinado pelo Coritiba, o acompanhou desde sua fundação em 1909. Suas filhas faziam parte do Grêmio Coritiba, confeccionaram a primeira bandeira do Coxa e uma delas se casou com um jogador alviverde. Kopf era fotógrafo e morava na rua Mauá, objeto de outro texto aqui do site, a uma quadra do Couto Pereira, e não perdia nenhum jogo. Considerado amuleto pela comunidade coxa-branca, chegou a acompanhar a delegação em viagens para dar sorte.

Fonte: https://i.pinimg.com/originals/ac/17/c7/ac17c7afc27b934b88c417fb4085467a.jpg

Max Kopf era um fumante inveterado, e seu cachimbo o acompanhava onde quer que estivesse. Sofreu um derrame, largou o cachimbo, mas seguia, de bengala e impedido pelos médicos de sair de casa, acompanhando todas as partidas do clube do Alto da Glória. Faleceu vítima de câncer em 1956, e no ano seguinte já foi eleito mascote do clube para lá ficar para sempre.

O vovô foi eternizado no Coritiba. Perdeu o cachimbo na evolução ao longo dos anos; foi se adaptando esteticamente. Sua identidade, contudo, foi preservada pelos coxas-brancas.

Fonte: Rede Coxa de Comunicação

Kopf representa “a torcida que nunca abandona”; a paixão do torcedor, maluco pelo clube que ostenta tão bela história. É a presença no estádio, ainda que nos momentos mais difíceis, como feito em 2019. É o “amor incondicional”, também exposto nas faixas alviverdes. É seguir o clube durante toda a campanha apesar da distância, como feito em 2010, quando só pudemos ser mandantes em Joinville.

Essa é mais uma das razões que nos fazem coxas-brancas do Alto da Glória. Nossa identidade, nesse texto exposta no nosso mascote, nas frases das faixas que estampam o Couto Pereira, e na conexão clube-torcida. É isso que nos faz amar o clube das duas listras verdes. Novos tempos difíceis virão, e teremos de reafirmar nossa teimosia em praticar o Coritiba.

FOTOS: vitória por 3x0 leva o Alviverde à final | Blog Torcedor do Coritiba  | Globoesporte.com
Fonte: Globoesporte.com

ADENDO DO ÚLTIMO TEXTO: Fui alertado por uma colega aqui do AdG de que há uma polêmica em relação ao primeiro jogador negro do clube do Água Verde, o qual aponta Urbino, que estreiou em 1925, como primeiro jogador negro a atuar com a camisa do clube.

Segundo o falecido jornalista Vinicius Coelho, Urbino não era negro, mas pardo (https://coxanautas.com.br/noticia/geral/os-negros-no-futebol-paranaense2/). Tal opinião é referendada pelo livro “Atletiba – A Paixão das Multidões”, que escreveu com o também jornalista esportivo paranaense Carneiro Neto, o qual escreveu livros sobre a história do time da Baixada.

Certo é que, branco que sou, jamais entrarei na polêmica sobre a negritude de Urbino, mas o adendo é importante para reforçar a pretensão de honestidade da coluna. Mas não é menos relevante que a polêmica sobre o primeiro negro a jogar do lado de lá está entre um futebolista que estreiou em 1925 e outro que entrou profissionalmente nos gramados em 1964.

Segundo matéria da Gazeta do Povo, Amauri teria afirmado que, ao chegar com 12 anos para treinar nas categorias de base do clube à época apelidado de ‘pó de arroz’, teria ouvido que “naquele clube não jogavam negros” (https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/alegres-memorias-de-um-craque-eaqfk3854uw1gtdbbuav0uury/). Fantástico que Amauri tenha contornado tal preconceito, e colorido o plantel do”Flamenguinho”, como chamava carinhosamente o CAP.

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Comentários

  1. Helena disse:

    apesar de não curtir o coxa, adoro esse vovô! excelente texto.

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