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Cadernos de memórias coloniais

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A história do povo brasileiro é uma combinação de um apagamento constante e intencional. Quando começamos a abranger um período mais civilizado, entramos num processo brutal, sujeitando todos nossos apegos e ideias ao retrógrado, voltamos a pensar como se ainda vivêssemos em cavernas.  Esse apagamento tem implicações sobre a mudança dos valores atuais, em nossa sociedade.   

Somos um país que padeceu com os mesmos métodos da agressão colonial portuguesa, invadindo nossas terras, aprisionando seus habitantes, tomando sua fé, impondo uma cruz, proibindo  nosso povo de falar sua língua nativa, o Nheengatú, a língua geral Tupi, que,  antes da invasão portuguesa, tínhamos mais de mil línguas diferentes pelos grupos indígenas que viviam em nosso território.  

Essa memória linguística se instalou em nossa toponímia, com as denominações que permanecem até hoje no cotidiano de nossas cidades e hábitos. Foi desta maneira que denominamos cidades em tupi (Araçatuba, Botucatu, Embu-Guaçu, Tijuca), o paladar sensorial marcante influenciado pelo clima tropical ofereceu delícias sem igual (cajá, jabuticaba, pitanga).  Com um vasto território a ser explorado, foram acrescentados africanos escravizados. Esses povos aprisionados, tiveram suas línguas nativas, incorporadas à uma nova configuração de falar imposta pelo colonizador. No caso africano, palavras de origem banto e quimbundo ampliam ainda mais a peculiaridade de fala com a inserção de novas palavras (dengo, muvuca, cafuné), enquanto os colonizadores esperam os jesuítas chegarem para iniciarem o processo de conversão religiosa com a meticulosa doutrinação escolar.   

Com a proibição de falar a língua geral, o Nheengatú, foi imposto a todos, a língua portuguesa como língua oficial do domínio colonial.  O colonizador tomou consciência da dimensão de suas novas terras, impôs o seu idioma e proibindo o nativo, com a intenção de dominar e explorar o território.

Parto dessas referências históricas para analisar as formas de dominação idênticas com outros povos dominados pelo império colonial português no continente africano. Para isso, proponho ao pessoal da arquibancada a leitura do livro CADERNOS DE MEMORIAS COLONIAIS, de Isabela Figueiredo, filha de colonizadores portugueses, nascida em Lourenço Marques, atual Maputo. A partir desse registro, ela desenvolve uma narrativa humana e muitas vezes dolorosa, inventariando sua experiência, com a de seu pai, ardoroso colonizador.

A filha de colonizadores portugueses no território de Moçambique, mostra suas vivencias, num depoimento dramático, expondo toda a brutalidade da ocupação. O caderno com registros, de maneira introspectiva, identifica hábitos, valores éticos e morais portugueses, assim como, o trabalho esgotante, a exclusão ferina, o racismo explicito, a luta anticolonial, a independência, o retorno forçado para Portugal, um  registro feito com escrita transparente , associando a colonização com o embrutecimento e a indiferença.

Este caderno, se abre com o registro do contato erótico da menina com outro menino, silenciosamente combinam,  como os adultos ensinavam que se devia dormir, pernas e braços bem direitos, seu amigo,  o Luisinho,  deitou-se nuzinho sobre mim, exatamente como nos ensinavam nos livros da escola que se devia dormir , e ali ficamos alguns minutos, nessa posição de difícil equilíbrio até seremos descobertos. Antes de apanhar já tinha certeza de que foder era proibidíssimo, nesse dia distante de 1970, perdeu a inocência e começou a sonhar que fodia com Gianni Morandi, cantor italiano.

O pai da personagem trabalha como eletricista, um trabalhador austero e cumpridor do seu ofício de maneira sistemática. Para isso contrata trabalhadores nas vilas pobres de Lourenço Marques, sempre com clara arrogância e brutalidade. Quando surge o 25 de Abril, dia do levante nos quartéis de Lisboa contra a ditadura de Salazar, passaram a enfrentar o período sem lei e sem trabalho da descolonização, as economias duraram o tempo de serem realizadas as lutas por independência colonial e depois afundaram em abismo sem fim.

Durante o período em que Moçambique foi ocupado pelos portugueses, instituiu um senso comum, suas razões para o convívio entre os brancos colonizadores portugueses e o povo de Lourenço Marques, os pretos africanos. O entrosamento das diferenças raciais não se baseava unicamente nas raças diferentes. Entendiam que a distância entre brancos e pretos era equivalente à que existe entre diferentes espécies. Eles eram pretos, animais. Os colonizadores eram brancos, pessoas, seres racionais.

A vida na colônia, colocava uma disparidade explicita e uma miséria que de alguma maneira foi vivenciada nas outras colônias portuguesas como Brasil e Cabo Verde. Conseguiam enxergar nas maneiras humildes, um bom preto. “Um que trabalha para a família era visto com nitidez: as suas mãos secas calosas postas à frente das pernas, com os dedos entrelaçados, enquanto agradecia, muito obrigado, patrão, muito obrigado, senhora, muito obrigado.”

A menina observa o trabalhador em sua postura humilde, confiando que seria possível acreditar na espécie humana, apesar de humilhados na hierarquia, mantinham a dignidade sobre todas as coisas.” Se lembra dos finais de tarde todos em ouro, de uma serenidade animada. Começava a ficar mais fresco. Os corpos largavam a escravidão do trabalho como se larga a pele velha. No dia seguinte seria domingo e no domingo não se falava em trabalho.”

A medida em que seu corpo cresce e desenvolve seus pensamentos, passa a pensar nos desejos contidos e os riscos de ousar encontrar com um preto. O perigo de que se estivesse grávida do preto, o seu pai podia matá-la, se quisesse. Espancando até o aviltamento. Aprendendo distanciadamente a conviver.   Nesses momentos de alegria na rua e no quintal entre os pretos, olhava-os torcendo o caju como a um esfregão e deixava um sumo áspero e doce, leitoso, que fazia os negros felizes. Ao domingo a tarde os negros eram felizes com seu vinho de caju. Nesses momentos pareciam com os patrões brancos, felizes, e podiam rir e foder, cantar, cair e dormir. Aos domingos à tarde eram quase brancos entre si. E tudo acabava à segunda, antes do raiar do sol.

Quando ia ao cinema, notava que os lugares eram separados e aos pretos era destinados lugares no fundo da sala. Em geral, no cinema ou fora dele, o olhar dos negros nunca foi, para os colonos, inocente: olhar um branco, de frente, era provocação; baixar os olhos, admissão de culpa. Se um negro corria, tinha acabado de roubar; se caminhava devagar, procurava o que roubar. Tinham essa vida na terra, não podiam ser como ela. Eram pretos. Era esse o crime. Ser preto.

Seu pai os procurava, no lugar onde moravam certos trabalhadores, procurando pelos bairros, perguntando onde está Ernesto? Onde está o preguiçoso. Encontrando, dizia asperamente “Segunda, vais trabalhar, ouviste? Segunda, estás nas bombas às sete. Vais trabalhar para a tua mulher e para os teus filhos cabrão preguiçoso. Queres fazer o que na vida? Safanão.” Na escola tinha uma menina que a irritava, sempre voltava a irritar. Podia perfeita e impunemente bater-lhe. Era mulata. Esse exercício de poder que não compreendia, e com que não concordava. Foi nesse período, presa fisicamente, sem pode sair, que ela descobre a ferramenta com que escavaria sua liberdade, a leitura.

O trato era bruto e explicito. A vida de um preto valia o preço da sua utilidade. A vida de um branco valia muito mais, mesmo que não valesse grande coisa. A vida de um “bife” da África do Sul, dos que vinham com chapéu mexicano apanhar sol, isso sim, era vida. Esses sim, sabiam lidar com pretos, mantê-los com rédea curta.

Com o levante dos pretos, a brutalidade vai-e-vem se expandiu, as cabeças dos brancos roladas no campo da bola iam perdendo o rosto, a pele, os olhos e os miolos, e o que restava da carne amolgada e dos maxilares partidos. O ar do fim da tarde fervia de energia de macho, de desejo, de medo. Barulho vão, descargas de voz desafinada, mas em fundo, nos peitos, um enorme silencio que treme, que devora, uma fome castigada que não sobreviveria ao riscar de um fósforo. Desse morticínio, o que mais a tocou foi o dos animais domésticos, por seremos únicos inocentes em tão complexo jogo de poder. (…)

Futebol, Candido Portinari, 1936

Diante do impacto da luta de libertação, os brancos procuram meios de conseguir voltar e levando o que tinha acumulado no tempo. A seleção dos objetos a serem levados, mesmo sem saber onde iriam morar.  Ali ou se era colono ou se era colonizado, não se podia ser qualquer coisa de transição, sem um preço, a loucura no horizonte. Afirmavam que os pretos não queriam trabalhar e morreriam de fome. Que a África sem brancos está condenada, que iam chorar e clamar pelos brancos.  A busca de um retorno, uma procura na capital Lisboa de parentes antigos, o vácuo de tempo em que não fomos pessoas, não tivemos culpas nem prazeres; nada humano – só nós; senti ao longe, ser apenas umas cabras, párias do sangue e da raça. Até perder a fé e a cortesia. Tudo. Havia constatado os ensinamentos que seu pai dizia quando explicava que não éramos pobres nem ricos, mas remediados. Ser pobre era dormir num colchão de palha. Ser pobre era comer toucinho cozido com batatas e couves. Ser pobre era ouvir a minha avó dizer que mais valia lavar roupa para fora do que estudar.  Não que a avó fosse indigna, porque a pobreza não era uma falha moral.

Nesse momento já era evidente seus conflitos, “meu pai podia obrigar-me a sentar, ouvir e calar, sujeitar-me a sessões publicas e privadas, formais ou informais, de ideologia rácica, mas não convencer-me das vantagens da raça nem do ódio. Meu pai não me arrancou ao que eu era nem ao que pensava; o meu pai não foi capaz de formar o meu pensamento. O meu pai não me dobrou. Escapei-lhe.”

Com o esforço de retorno, surgem outras surpresas chocantes, a terra queimada, tornava-se, assim, a mais expressiva para o que a minha terra se havia tornado. Terra queimada por eles para nós; queimada por nós para eles; queimada, porque eles, sem nós, não se ergueriam, um pensamento hoje atualizado pelo grotesco ministro brasileiro do meio ambiente que acoberta o incêndio da floresta como progresso.  Ao chegar em Lisboa, descobrirá que os retornados não eram bem vindos e o mais difícil, não havia emprego para eles.

A leitura dessa obra nos mostra as vivencias semelhantes com os maus tratos que passamos neste Brasil cínico, que exige obediência a colônia e reverência a uma igreja que abençoou a escravidão. Essas leituras nos estimulam a olharmos no espelho e ver o que somos ou o que nos tornamos. O filósofo francês Jean Paul Sartre, em um prefácio ao estupendo livro de Franz Fanon, OS CONDENADOS DA TERRA, cujo primeiro parágrafo, afirma que os europeus haviam enterrado a cabeça dos africanos embaixo da terra durante quatro séculos, agora eles haviam conseguido levantá-las, o que os europeus esperavam ouvir? Doçura?

Para concluir, apresento uma história pessoal. Iniciei como professor de geografia na rede estadual em São Paulo, no colégio Alberto Levy, no bairro de Indianópolis. Uma escola muito diferente das que eu mesmo havia estudado. Professores cultos, solidários e amigos de novatos como eu. Eu ia avançando nas minhas experiencias quando tive minha primeira e chocante lição da sala de aula. Um aluno novo, no curso do ensino médio, primeiros anos, havia chegado, estávamos estudando a colonização portuguesa e o tal aluno, levantou a mão para contar sua experiência. Ele vinha de Angola e todas as manhãs saia com seu avô para matar negros como diversão, que seu avô tinha ensinado, que jamais deveria vestir a camisa que um negro suou. Que ele não admitia não poder ter seu passaporte negado por um soldado cubano invasor. Não tinha ouvido tanta coisa agressiva até aquele dia, esperei ele terminar e esclareci que Fidel Castro havia esclarecido que os cubanos não eram invasores, eles eram os escravos, humilhados e vendidos por mercenários, enviados ao porto de escravos, a ilha de Cuba. Eles eram irmãos desses angolanos e que cá, tinham voltado com força e armas para enfrentar aqueles que os tinham vendido.

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Comentários

  1. Alê Kishimoto disse:

    Linda coluna Rubens! Parabéns!

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