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O advogado do diabo e o raio-X das eleições vascaínas

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Créditos:

@alexcalheiross

O quanto há de emoção e o quanto há de razão no seu voto? Ali, naquele momento junto a urna, somente você e as opções. Será possível mesmo saber o que te move? Possivelmente a filosofia crítica de Immanuel Kant, que estabelece os limites do conhecimento sem desconsiderar a metafísica, ajude a responder. Por ora, talvez, seja mais fácil se apegar as interpretações e principalmente a dúvida. Na era da pós verdade as “fake news” são armadilhas perigosas. Deixemos as crenças de lado para, quem sabe, esquecermos a intolerância. Convicções são ótimas desde que não nos transformem em robôs. Passo longe de toda esta celeuma de lados e faço da hesitação a minha melhor ferramenta. E como nunca há 100% de certeza, mal ou bem, o fato é que seguimos desorientados e reticentes até o dia seguinte. O que, claro, não significa isenção. Sem cegueira, a análise crítica e profunda nos salvará!

De cima do muro, o que dá para fazer é observar as bizarrices políticas que nos assolam. Acredite! Após duas eleições distintas com o mesmo propósito, cada uma delas aparentemente de forma democrática, eis que surge a possibilidade de um tira teima. Como assim? Onde isso? No Vasco, é claro. A razão do deboche é pelo já tradicional histórico de confusões durante o processo. Não é de hoje que uma ação, teoricamente simples, ganha inúmeros desdobramentos. Pergunto: qual a dificuldade em cadastrar todos os sócios capacitados a votar e garantir a eles o direito de escolha em uma data pré-determinada? Parece simples, não? Parece. Mas em São Januário a coisa não funciona assim.

Passo a passo, de forma didática, simplificada e até mesmo leiga e ingênua, sigo em busca do entendimento sobre o assunto. Tudo para tentar justificar a relação de amor e ódio por parte de alguns torcedores com os seus respectivos escolhidos e adversários. Pobre Vasco de elástico. Esticado por todos os lados e a cada dia por mais gente. Haja colágeno.

Em tese, de acordo com o estatuto ultrapassado, porém efetivo até ser alterado de forma legal, os presidentes Alexandre Campello e Fauess Mussa deveriam se alinhar para conduzir o processo eleitoral de forma transparente e democrática. Mussa, presidindo a Assembleia Geral, coordenaria com a imparcialidade que o cargo exige o andamento do pleito com o suporte administrativo de Campello. Surgem aqui as primeiras dúvidas ou ranços. O presidente Campello, que tem a máquina na mão, mostrou-se interessado na lisura do processo? E o senhor Mussa? Manteve-se isento mesmo com o filho e os netos afiliados a uma das chapas concorrentes? Seriam eles, antes de vascaínos, adversários políticos ou estariam brigando contra o sistema cada um a sua maneira?

O advogado do diabo, e só ele, diz que mesmo com o Vasco caindo pelas tabelas, o atual gestor teria alguma possibilidade de reeleição graças ao voto de cabresto, a certo avanço administrativo e ao sistema viciado. O mesmo doutor afirma que Mussa, por sua vez, se tivesse ética e moral deveria se afastar do cargo por conflito de interesses. Faz sentido? De certa forma pode-se dizer que sim, mas na minha boa fé, caminho na contramão do tinhoso e considero plausível que o atual presidente do Vasco e o da Assembleia Geral não teriam qualquer outro interesse se não o de oferecer ao vascaíno uma eleição digna. Até porque ambos sempre foram categóricos em afirmar isto aos quatro cantos. Mas e aí? Como o sócio escolheria o próximo presidente do Vasco em tempos de Covid-19? Escolha online, eleição híbrida ou presencial?

Percebe-se neste momento que Campello e Mussa não se entendem em relação ao formato da escolha, mesmo depois de uma votação online garantir-lhes a eleição direta. Surge então outro questionamento diabólico a partir daí: como não é possível ter credibilidade se coube a este mesmo formato, online, a intermediação para tal decisão? Da porta do Tribunal do inferno o advogado do capeta, mais uma vez, grita em alto e bom tom: “pouco interessava o formato de escolha porque o importante mesmo sempre foi aprovar quem decidiria o vencedor”. Aliás, dá para lembrar que houve muito disse me disse nas internas durante este período. Pairou-se no ar, em alguns momentos, a dúvida sobre quem seria a favor ou contra a escolha feita pelo sócio sem a chancela da turma da Lagoa.

A verdade é que não seria politicamente interessante para ninguém, principalmente depois do episódio de 2017, ser contrário a este modelo. Diante desta certeza os fins justificariam os meios, ou seja, escolha online ou por meio de um papelzinho dobrado colocado em um saco de pão não mudaria o resultado desejado. Ressalta-se também que nesta mesma ocasião, a empresa contratada para o serviço, se não me falha a memória, foi a mesma que solicitou aos sócios o envio de documentos digitalizados para cadastro. Vale lembrar ainda que este mesmo movimento provocou apreensão em muitos vascaíno após o próprio clube, na figura do presidente administrativo, desqualificar a legitimidade do pedido. O que uma situação tem a ver com a outra? Boa pergunta! Mas criava-se ali a versão cruzmaltina da guerra fria entre soviéticos e americanos. Criava-se ou deflagrava-se uma antiga briga política de tempos atrás?

Em meio a todo este imbróglio e na busca pelo entendimento sobre como se daria a eleição, vem a memória uma outra lembrança. Uma nota emitida pelo Vasco que põe em xeque a capacitação do processo eleitoral definido por Mussa. Neste comunicado o sócio João Eduardo Nery de Oliveira, especialista em segurança da informação e com experiência em eleições públicas, eleitoral e por tribunais regionais, foi citado nominalmente. De acordo com o comunicado, João teria enviado uma carta aos presidentes dos poderes do clube afirmando que o processo de eleições pela Internet poderia ser fraudado. Também nesta mesma nota, segundo um laudo do Programa de Engenharia de Sistemas e Computação da Coppe/UFRJ, não existiam garantias suficientes para a realização do pleito de forma virtual dentro do prazo estatutário. Certeza ou politicagem? Pau na máquina.

Mas como depois do caos costuma vir a bonança, ao perceber que não se havia um consenso sobre o formato, o então presidente administrativo, Alexandre Campello, convocou uma reunião com todas as partes envolvidas para gerir o processo eleitoral da melhor maneira possível. Mussa não pode ir por problemas de saúde. Porém, enfim, mesmo com a ausência do presidente da Assembleia, tudo indicava que São Januário teria uma eleição condizente com os princípios básicos da própria instituição. Um clube democrático, de todas as cores, credos e classes sociais. Eleições limpas.

Entretanto a paz durou muito pouco, embora todos, sem exceção, repetissem a cada entrevista o mantra sobre a necessidade de se apaziguar os ânimos. Conversa! Após a reunião em que os caminhos teoricamente foram pavimentados, mesmo distantes de um acordo para todos os gostos, uma bomba em forma de liminar aniquilou completamente o pouco até ali alcançado. A justiça acatou o pedido de Fauess Mussa e confirmou o pleito online para o dia 14 de novembro. O possível cessar fogo deu lugar a novos combates. A guerra recomeçou para delírio do capiroto e a fogueira do poder e da vaidade que já queimava forte ardeu de vez. No ouvido vascaíno o diabinho assoprou: será que o presidente Campello já não sabia da liminar de Mussa e convocou a reunião exatamente para jogar o vascaíno contra o desafeto? Esta hipótese seria um tiro certeiro e mataria dois coelhos com uma cajadada só. Em vez de um, dois adversários políticos seriam atingidos: Mussa e Julio Brant.

O candidato da Sempre Vasco, suposto aliado de Mussa, foi atacado nas redes sociais e desmentiu as acusações. Ataques, aliás, que assim como aconteceu na época do charuto, foram limitados pelo grupo de apoio. falou-se em censura, mas ora… Ora… Como assim? Em coletiva pós furdunço, Brant reafirmou que desconhecia a liminar, negou a aliança e uma possível tentativa do presidente da Assembleia em favorecê-lo. O que de fato faz todo sentido, afinal, se existisse realmente conluio para manipular o pleito a seu favor, na segunda votação, a online, Brant teria saído vencedor. O que não aconteceu. Erro de estratégia ou realmente isenção? A seguir: cenas dos próximos capítulos.

Antes do próximo episódio, porém, é importante observar outros dois candidatos: Sergio Frias mantinha-se firme na proposta de marcar território e seguia posicionamento contrário a maioria. Já Jorge Salgado, por outro lado, seguia em compasso de espera e dançava conforme a música. Parecia distante e pouco participativo.

Dito isto, aqui se inicia um capítulo imperdível. Nem Gloria Perez seria capaz de escrever algo tão impactante para a próxima novela das oito. Um quinto elemento, quinto apenas por não ter sido citado até aqui, na sexta-feira a noite, véspera da data do primeiro pleito, o presencial, adiado graças a tal liminar do presidente da Assembleia, muda a determinação da justiça com outra ação e mantém a votação na data inicial, 7 de novembro, ou seja, o que seria e passou a não ser voltou a ser novamente. Leven então parte com mala e cuia para São Januário junto com os demais candidatos. Habemus eleição!

Claro que o nosso advogado do diabo se pronunciaria com esta mudança. Para ele, Leven mostrou-se um excelente estrategista. Graças a um movimento inesperado e nada simpático aos interesses dos eleitores “off Rio” e desavisados, transformou o pandêmico sábado vascaíno em dia “D”. Questionado sobre a ação, Leven Siano foi enfático: “como não foi considerada a reunião organizada pelo presidente Campello e a eleição foi levada para a justiça, nós decidimos brigar nela também”. Pôs-se então fim a qualquer tentativa de conciliação. Se é que existiu alguma chance de isto acontecer em algum momento. O nosso doutor demo de plantão, porém, garante que a jogada foi previamente orquestrada pelo próprio candidato e contou com a participação cirúrgica de Roberto Monteiro, presidente do Conselho Deliberativo. Segundo o representante do cramulhão, a jogada favoreceria Leven que já teria, supostamente, mobilizado os seus eleitores com antecedência.

Sábado, 7 de novembro, com o Coronavírus bombando, quem pode ir compareceu, quem estava longe permaneceu assim e quem não queria correr riscos não deu as caras. Os candidatos estavam lá, parte dos correligionários também e o pleito seguiu normalmente até um outro míssil atingir em cheio a disputa. No jogo do vale não vale, a votação foi suspensa pela justiça. Quem estava lá permaneceu sem muita convicção, quem estava longe continuou assim, quem já não queria mesmo correr riscos nada mudou e quem estava a caminho voltou de onde estava. Mas uma nova reviravolta fez valer o que não valia mais, porém sem validade. Complicado? Muito! Mas vai piorar!

Uma semana depois… Nova eleição! Dos cinco concorrentes sobraram apenas dois. A primeira eleição online realizada na história permitiu que o vascaíno do outro lado do mundo pudesse votar pelo celular. Quem pode e quis, compareceu, quem estava longe usou o celular e quem não queria correr riscos por conta da Covid seguiu sem dar as caras. Ah sim! Muitos, indignados com tamanha confusão, independentemente de lado, chutaram o pau da barraca e largaram de mão.

Mais um prato cheio para o nosso advogado do diabo soltar das suas. A primeira delas é óbvia e se refere a segurança do eleitor. Como realizar uma votação online com a presença de pessoas na sede? Curiosamente alguns grupos se aglomeraram na porta do Calabouço com direito a churrasco e TV para assistir a vitória do Vasco sobre o Sport. As perguntas não param por aí. Votação mais democrática sem a presença dos que não tem acesso ou conhecimento da ferramenta? Houve tempo para o aprendizado? Aliás, a empresa responsável pelo pleito foi novamente colocada em xeque. Antes da votação foi divulgado um vídeo sobre a fragilidade do sistema de segurança que expunha os dados pessoais dos sócios. Informações estas que sempre estiveram visíveis no site do clube, diga-se de passagem, embora exista uma grande diferença entre mostrá-las e não garantir sigilo quando esta seria uma das condições asseguradas ao contratante. Que loucura!

O fato é que Mussa e Campello deveriam ter conduzido o processo lado a lado, mas há quem diga que este foi o grande problema. Eles jamais conseguiriam caminhar juntos porque desde sempre seguiam para lados opostos. Talvez ambos tenham realmente lutado contra o sistema, mas sucumbiram e tudo permanece como antes. Racionalizando-se o processo enxergam-se pontos positivos e negativos em relação a todas as situações, mas não há nada suficientemente convincente de que o Vasco será preservado. Claro que frente a frente com este cenário caótico o advogado do capeta não deixaria barato: e os projetos? Bem, seria ótimo se pudéssemos avaliar cada candidato pelo que apresentaram e o escolhêssemos por causa disso. Difícil. Com emoção ou com razão a verdade é que até agora ninguém sabe quem será o presidente do Vasco.

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