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Sobre a Rivalidade e o Respeito

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Seguindo neste processo de crônicas miscigenadas à minha apresentação, preciso destacar que torço para o Santos e não sou de Santos, não nasci nem nunca morei na cidade praiana. O que é muito normal, visto o tamanho gigantesco da história deste time: tem muito mais santista no mundo que moradores no município de Santos (de acordo com o Google, quase 14 vezes mais). Nasci no interior paulista, em Campinas, em uma família bem diversificada e distribuída nos seus distintos escretes amados: meu pai torcedor do São Paulo, minha mãe da Ponte Preta, minha irmã do Guarani e eu, mesmo entre tios, primos e avós, o único santista da família. Para completar, me casei com uma palmeirense e, de quebra, ainda ganhei um cunhado corintiano.

Voltando às minhas origens e meu vínculo com o glorioso alvinegro praiano, meu pai quis me vestir o manto tricolor desde pequeno, mas nunca me levou num estádio, sequer sentou ao meu lado para assistir um jogo na TV. Resultado: assim que tomei conhecimento de causa do que era o Futebol, aos 10 anos – aliás, justamente no dia do meu aniversário de 10 anos – ouvindo de canto uma rodinha de conversa dos adultos chegar no tópico do campeonato, disse diretamente a ele “Pai, eu não gosto desse negócio de São Paulo”. Impactado pela recusa, mandou-me chamar todos os amiguinhos presentes na festa e repetir na frente deles. Confirmei com um “Não sou são paulino”, o que o fez proferir sua célebre máxima: “Depois não reclama, porque ano-sim-ano-não o São Paulo é campeão” (e ele me dizia isso bem antes de começar a saga dos mundiais tricolores). Mas eu não me importava, aos 10 anos eu já sabia que não bastavam títulos para a conexão, era algo além, muito maior, ainda indefinido, mas em processo.

Passei bom um tempo sem um clube definitivo, apreciando agremiações do interior mesmo impossibilitado de acompanhar muito de perto. Até porque, convenhamos, anos 80 era pesquisa escolar em jornais velhos e livros da biblioteca municipal, internet não era nem citada direito nos filmes futuristas de naves espaciais e altos avanços tecnológicos, então mal dava para ouvir no rádio (AM, claro) as partidas dos clubes que eu tentava destacar apreço. Lembro que mascotes engraçadas geravam esta proximidade, pique o Sapão de Mogi ou o Burrão de Taubaté (ou ainda, por vínculos familiares, a Ferrinha de Araraquara, donde moravam meus avós paternos). Mas o fato de entre tantos não ter nenhum específico na minha preferência mostrava que não era pra ser nenhum deles.

E então descobri, por conta própria, aquele time que entrava todo de branco em campo. Foi aquele impacto total: os outros clubes, cheios das cores, até pareciam querer chamar mais a atenção para o uniforme que para o Futebol em si que praticavam, enquanto que o escrete alvinegro, aos meus olhos, era mais sintético. “Quando geral grita o tempo todo, uma brecha de silêncio é praticamente um berro”, pensava eu. Em paralelo, eu também estava começando a jogar Capoeira, uma Arte que sempre admirei por toda sua história e luta, e a proximidade dos uniformes foi natural no processo. E busquei conhecer as histórias e lutas do Santos Futebol Clube, títulos e conquistas, ídolos e torcidas, era tudo lindo, até as fase difíceis eram daquela tristeza poética, eu só pensava “É, bateu, achei meu time!”.

Acompanhei o elenco jogar pelo rádio por bons anos – a TV era reservada para uso coletivo de toda família em conjunto, minha paixão praiana era só minha mesmo. Até que, lá para meados da década de 90, quando eu já tinha idade para ir sozinho aos jogos e, buscando aqui na memória, quando nossa zaga tinha Argel – cada enxadada uma minhoca – e no ataque Viola em um de seus diversos retornos, descobri que, naquele Paulistão, teria um Guarani X Santos no Brinco de Ouro da Princesa. Minha mãe, pontepretana de glórias mil, gostou da idéia de que meu primeiro jogo seria contra seu arqui-rival de tantos Derbis, me levou de carro e me largou no portão dos visitantes com o dinheiro para o ingresso e a passagem de volta de ônibus, deu o famoso “tchau e bença, nos vemos em casa, juízo, se cuida, não se envolve em briga…” e diversos outros modos de demonstrar seu carinho e preocupação comigo enquanto me confiava os votos de boa sorte ao me soltar no mundo (ao menos, um mundo aonde não tinha o controle, era puro imprevisto). 

Entrei no estádio e tudo era sensacional, o fluxo da torcida, a vista da arquibancada, se sentir pequeno naquele espaço tão amplo e tão cheio, o som dos gritos de um lado, a resposta do outro… Aliás, como era bacana quando o natural eram as duas torcidas em campo, muito antes de senhores engravatados e/ou fardados cogitarem sua higienista torcida única, quando não portões fechados (bem antes dessa necessidade pandêmica). E, neste canto de todos os cantos, fui me confirmando cada vez mais como certo do meu destino de alvinegro, foi tudo se somando até seu ápice, quando nossa torcida explodiu com o único gol daquela peleja, de autoria do supracitado camisa 9, Viola. Aquele momento foi a cereja do bolo, perfeito e preciso. Sendo único, serviu até para mostrar que o gol é só uma peça em todo espetáculo e que, por mais importante, se não tiver outros complementos coerentes, pode até nem fazer sentido. E foi tão perfeito e tão preciso que minha memória, depois de mais de 20 anos, mal se lembra de algo mais, sequer a volta pra casa.

E estes ambientes, do campo ao familiar, me ensinaram muita coisa, formaram meu caráter e meus valores. Me fez ter a paixão arrebatadora que se tornou um amor profundo pelo glorioso alvinegro praiano, mas também me fez ter um grande respeito pela macaquinha querida da minha mãe (quase que por osmose ao carinho materno). E nessa, a porta de entrada para entender outros adversários com o mesmo respeito, saber que quanto maior o rival, mais digna é nossa vitória (ou mais justificável nossa derrota). Foi o caminho para vislumbrar o Futebol como uma enorme festa popular que, para acontecer, precisava da rivalidade, precisava do diferente frente-a-frente no gramado ou teríamos apenas partidas entre titulares e reservas (mas rachão não tem a mesma graça). Foi ver, no lugar do adversário, amigos e parentes que me encaminhei para a compreensão de alguns conceitos que chegariam bem mais tarde até mim. De que o Futebol é do Povo. E o Povo, separado por seus times, sofre as mesmas repressões. E separado vê o verdadeiro inimigo crescer, descobre que ele não é seu rival de jogo, mas aquele que quer a morte do Futebol, deixando-o elitizado e estéril – pique partidas de tênis ou pólo – e de que o caminho é nem guerra entre as Torcidas, nem paz entre as Classes.

Mas isso é assunto para as próximas páginas, ainda tem muito jogo pela frente…

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