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Carnaval e futebol: corpos que driblam a morte

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Créditos: Reprodução – Silvio Almeida – canal do Youtube

Recentemente, o advogado, filósofo e professor Silvio Luiz de Almeida, autor de “Racismo Estrutural”, entrevistou em seu canal do Youtube o historiador, escritor e babalaô Luiz Antonio Simas, autor do livro “O corpo encantado das ruas”. Nessa entrevista, Simas fala sobre a “brasilidade”, que seria o oposto do “Brasil oficial”:

“O Brasil institucional, o Brasil oficial, é um projeto muito bem sucedido de ódio. Não é um desvio, um erro, foi projetado pra ser assim. É um projeto colonial estruturado a partir de uma dimensão hétero patriarcal branca, fundado na domesticação dos corpos, na submissão dos corpos para o trabalho, é o caso dos corpos escravizados, pretos, negros e indígenas. Na submissão do corpo da mulher à lógica da virilidade masculina, na submissão do  corpo masculino à domesticação pela virilidade, e todos os corpos são domesticados, normatizados  dentro de um imaginário catequista ligado à ideia do pecado. Mas ao mesmo tempo que você tem o Brasil institucional que é um projeto de horror,  que é um projeto de ódio, que é um projeto de exclusão, você tem a brasilidade que é um caldo de cultura que opera nas frestas do Brasil institucional, e numa relação que tensiona a relação com esse Brasil institucional, e que está presente na música de Gonzaga, que está presente no samba do Cartola, na ciranda de dona Lia, que está presente na capoeira do mestre Bimba, na capoeira do mestre Pastinha, no prato de dona Edite, no samba de roda do Recôncavo,  está presente nos bois misteriosos do norte brasileiro, presente nos candomblés de Ketu, Jejê, Angola, nas umbandas, torés, babassuês, está presente em tudo isso. Então essa brasilidade é um grito contra o Brasil, esse Brasil institucional age geralmente contra essa brasilidade, muitas vezes não apenas reprimindo, mas tentando domesticá-la, pra tirar dessa brasilidade a potência libertadora que ela tem.”

Segundo Simas, o samba, o futebol e essas religiosidades operam numa dinâmica complexa na qual, para quem vê de fora, o que parece domesticação ou adequação, consiste num caminho de transgressão, de reconstrução incessante e sofisticada de modo de vida. Isso é o que ele chama de “estratégia de fresta”, em que negociar  significa uma forma efetiva de resistência, ao delinear maneiras de construir a vida no precário: “Então às vezes as pessoas não entendem que um Rum, um Rumpi, um Lé, os três tambores do candomblé, um repique de escola de samba, um corpo gingando na capoeira, um corpo dançando num baile charme debaixo de um viaduto em Madureira, um samba de  bumbo de Pirapora de Bom Jesus, um samba de coco do Nordeste, isso tudo é política.” Assim como o futebol, em sua dimensão popular dos boleiros anônimos e dos torcedores, também é política.

Ontem li uma notícia dizendo que a média móvel de mortes no Brasil pelo Coronavírus nos últimos 7 dias foi de 496, com variação de 51% em comparação à média de 14 dias atrás, indicando tendência de alta nas mortes por Covid. Além disso, onze estados apresentaram alta na média móvel de mortes. (G1, 23/11/2020). 

Como não podia deixar de ser, essa situação vem afetando o futebol. Aqui no Atrás do Gol, por exemplo, Sandro Mangueira relatou que na Paraíba, o primeiro jogo do Treze Futebol Clube na Série C, após os três meses de interrupção do campeonato, foi adiado quando os jogadores se preparavam para entrar em campo: 12 jogadores do time do Imperatriz estavam infectados com o novo coronavírus. Mais recentemente, David G. Jesus falou da preocupação dos torcedores do Palmeiras com o fato de que o time já teve 18 jogadores afastados pela Covid-19, com cinco deles confirmados nas vésperas do jogo contra o Goiás, para o qual Abel Ferreira teve que contar com jogadores da base para completar o banco de reservas. No sábado seguinte, o Palmeiras perdeu de 1 x 0 do Goiás. Já Marcelo Júnior relatou em sua coluna que o Atlético Mineiro admitiu em 16/11 que oito profissionais de sua comissão técnica, incluindo o treinador Jorge Sampaoli e um atleta haviam se contaminado pela Covid-19. Na rodada seguinte, o Atlético não conseguiu superar o Ceará no Castelão e ficou no empate por 2 a 2.

Segundo matéria da UOL, na última rodada do Brasileirão (22/11), os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro tiveram, somados, 60 desfalques por coronavírus, além de dois treinadores contaminados e em isolamento. De acordo com levantamento da CBF, 19% dos jogadores testados nas séries A, B, C e D, além de aspirante, sub-20 e sub-17, já tiveram contato com o vírus desde o início da pandemia e foram contaminados em algum momento. Comentaristas esportivos tem desabafado sobre a queda do nível técnico do campeonato e sua consequente imprevisibilidade, devido ao alto número de desfalques dos times pelos surtos de covid-19. As aglomerações dos torcedores, como nos casos recentes de Flamengo e São Paulo, preocupam colunistas daqui (Jô Miyagui e David G. Jesus), além de autoridades.

Mas, afinal de contas, a quem interessa manter os jogos dos Campeonatos Brasileiros apesar de toda a situação medonha descrita acima? À CBF, claro, com seus protocolos cada vez mais questionados, além dos clubes de futebol, dos dirigentes das federações estaduais e das emissoras de televisão e seus patrocinadores. E a Jair Bolsonaro, claro.  Eles representam o Brasil oficial ou institucional descrito pelo Luiz Antonio Simas, o poder hegemônico que, em nome do “bom funcionamento da economia”, não se importa com aqueles que se vitimam com a doença, em geral os menos favorecidos. Porque dentre as cerca de 300 pessoas envolvidas num jogo de futebol sem torcida, a CBF se responsabiliza em testar apenas os jogadores de futebol e a comissão técnica dos times. Mas e a brasilidade presente no futebol? Ela parece que ora nega a realidade, se aglomerando junto aos times, ora balbucia insatisfação, ora se silencia. Ou é silenciada. 

Perguntado por Silvio de Almeida se diante da pandemia haverá Carnaval, Luiz Antonio Simas disse que é preciso dar uma resposta responsável, que o problema não acabou. Lembrou que terreiros de candomblé muito importantes do Brasil também adotaram a perspectiva de que a hora é do recolhimento. “Eu temo até que algumas pessoas irresponsavelmente façam um Carnaval que no fim das contas não será carnavalesco. Por que? Porque o Carnaval é uma disputa entre o corpo e a morte. O corpo do Carnaval é aquele que dribla a morte. A morte não alcança ele. Então a gente tem que ter uma reflexão sobre isso. E terá o Carnaval. Quando vier vai ser bonito. Que venha bonito. Que venha com alegria. Porque o Carnaval é isso, é uma experiência de liberdade do corpo que dribla a morte.” Que, assim como o Carnaval, possamos no futebol “cadenciar” ou “esfriar” o jogo para driblar a morte.

Para ver a entrevista de Silvio de Almeida com Luiz Antonio Simas: https://www.youtube.com/watch?v=dnM5I5wWePs

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Comentários

  1. Antonio Rodrigues do Nascimento disse:

    Muito bom! Não conhecia o blog. Vou acompanhar mais de perto agora.

    1. Alê Kishimoto disse:

      Que massa Toninho! Sonho com uma entrevista tua aqui pra falar do teu livro “Futebol & Relação de Consumo”!

  2. Jô Miyagui disse:

    No Brasil, vidas do povo pouco importam. Importa o capital. Um dia vamos entender esse desprezo pelos 99% e nos rebelar.

    1. Alê Kishimoto disse:

      Oxalá Jô, quem sabe isso não começa na cidade de SP neste domingo?

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