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A mulher tricolor e o Bahia, um amor além da arquibancada – II parte

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Créditos: Arte: Catherine Satrun e Sarah Satrun

O Bahia anunciou dia 13/11/2020 as chapas inscritas para concorrer a eleição do dia 12/12/2020. Com duas chapas inscritas para a Presidência e dez grupos para o Conselho Deliberativo, procurei representantes dos quatro grupos que faltaram na entrevista que fiz sobre a mulher na política do clube.

Se considerarmos que dos dez grupos inscritos cada um tem, obrigatoriamente, vinte mulheres, no mínimo, são 200 mulheres concorrendo ao cargo de conselheira. É um número bastante expressivo que impactará na próxima composição do Conselho Deliberativo, pois temos mulheres liderando ou compondo as 20 primeiras posições das listas das chapas, então a possibilidade que sejam eleitas é maior.

Dando continuidade a entrevista, dessa vez conversei com representantes de quatro grupos políticos: 100% Bahia, Bahia de Todos e Todas, Mais Bahia e Simplesmente Bahia, para que elas relatem a experiência delas com a política do clube. As respostas foram colocadas por ordem alfabética. A primeira pergunta foi respondida somente por Andreia Cerqueira do Mais Bahia por ser uma das autoras do projeto, atual artigo do Estatuto, que garante um mínimo de 20% de mulheres compondo as chapas. A segunda pergunta foi respondida somente por aquelas que tiveram ou ainda estão no papel de conselheiras.

– Como surgiu a ideia de criar o artigo que garante a composição de 20% de mulheres nas chapas? Fala um pouco sobre as razões em mente na época, o impacto nessa eleição e as dificuldades.

Andreia Cerqueira (Mais Bahia) – Bem, a ideia surgiu logo após a eleição para o Conselho Deliberativo ocorrida em dezembro de 2013. Nessa eleição, para o mandato 2014-2017, haviam sido eleitas 8 mulheres, do total das 100 cadeiras que formam o Conselho. Quando nos demos conta dessa desproporção absurda, eu e Rebeca Bandeira (como eu, uma das 8 eleitas) conversamos muito sobre o assunto e veio a ideia de fazermos alguma ação para mudar esse cenário. A ideia se transformou num objetivo a ser perseguido, e a oportunidade de alcançar esse objetivo surgiu quando foi iniciada a reforma do Estatuto: vimos ali a ferramenta que viabilizaria o aumento da participação feminina não só no Conselho especificamente, mas principalmente no quadro de sócias do Bahia.

Encontramos questionamentos dos mais diversos, é verdade, mas seguimos em frente com o apoio e participação de todas as demais conselheiras. Apresentamos ao pleno do Conselho a proposta e esta foi aprovada por unanimidade, em junho de 2017, com aplicação para a eleição de dezembro de 2020. Com a obrigatoriedade de ter um mínimo de 20% de mulheres em cada chapa que concorresse ao conselho, nossa ideia era incentivar uma maior participação das mulheres nos grupos políticos e também no quadro de sócias do Clube, engajando as mulheres no todo que compõe o Esporte Clube Bahia. Mas não está sendo tão simples assim.

Futebol é um dos mais enraizados redutos do machismo, e nenhum dos grupos do Bahia tratou o tema com a seriedade e antecedência necessárias a uma mudança de cultura como esta. Não houve o fomento à participação da mulher nem em fóruns de debates nem no planejamento de gestão/atuação, não houve a mudança na forma de pensar e planejar as ações políticas de cada grupo desde a aprovação da mudança do Estatuto. Para a maioria, o artigo acabou por significar, na prática, um grande empecilho na formação das chapas para a eleição do próximo dia 12. Mas, com dificuldades ou não, o fato é que nas 10 chapas inscritas, temos 20 mulheres, em cada uma delas, integrando a composição, o que assegura a participação de 200 mulheres nessa eleição.

– Como foi (é) vivenciar esse papel de conselheira?  

Andreia Cerqueira (Mais Bahia) – Foi espetacular. Um aprendizado ímpar, que me ensinou muito sobre tudo que envolve um clube de futebol, inclusive seus aspectos políticos. O papel do conselheiro é muito importante na gestão do Clube. É preciso responsabilidade e dedicação ao Clube para contribuir na sua melhoria contínua. É preciso se debruçar sobre os temas em pauta e ter muito foco para tomar as decisões mais adequadas, para fazer com seu voto seja a materialização da sua contribuição ao Clube, sem qualquer intenção de autopromoção ou benefício pessoal de qualquer espécie. O bem do Bahia tem que estar acima de tudo.

Virgínia Mendes (Bahia de Todos e Todas) – O Conselho é um espaço masculinizado, chegando a ser o “Clube do Bolinha”, onde a invisibilidade da mulher é historicamente muito grande. Tive de me impor em vários momentos nas reuniões, pois tentaram calar a minha voz por diversas vezes, mas não conseguiram, diante da minha firmeza de conhecimento. Há claramente um tratamento dado a mulher bem diferenciado nesta gestão do Conselho Deliberativo (2017/2020). A minha esperança é que as mulheres eleitas para a próxima gestão do Conselho Deliberativo não fiquem caladas e se associem a mim, por isso a nossa chapa, “O BAHIA DE TODOS E TODAS”, buscou mulheres com engajamento político em prol do Bahia.

– Qual sua opinião sobre a participação da mulher na política do clube até então? 

Andreia Cerqueira (Mais Bahia) – Na minha opinião, a participação feminina na política do clube é um aspecto que ainda pode ser melhor trabalhado, que ainda tem muito o que crescer. Mas isso é reflexo da sociedade como um todo… o clube de futebol é um recorte dentro do todo da sociedade e tem, por assim dizer, as mesmas nuances da participação feminina na política partidária, por exemplo. Ou seja, ainda participamos muito pouco da vida do Clube, da sua gestão e do seu universo de sócios. Temos muito a contribuir e, para termos um Bahia mais forte e plural, será necessário fomentar essa participação, ampliando os espaços de atuação da mulher.

Fernanda Tude (100% Bahia) – Estamos no processo de conquistar o nosso espaço em todos os setores do futebol. Já temos comentaristas, narradoras, juízas, profissionais das mais diversas áreas atuando não só no âmbito do futebol feminino, como também com expressivo papel no masculino, e na política não é diferente! Assim, especialmente no Bahia, que é pioneiro em ações afirmativas, o papel da mulher se mostra de fundamental importância para garantia da diversidade de gênero. Ainda estamos muito longe do ideal, mas o importante é que estamos no caminho certo e esse ano já iremos observar um conselho muito mais plural.

Tatiana Nunes (Simplesmente Bahia) – Na minha opinião a participação feminina na política do clube ainda está embrionária. Mas, vejo que cada vez mais, as mulheres estão ocupando este espaço que antes era predominantemente masculino.

Virgínia Mendes (Bahia de Todos e Todas) – Vejo como positiva. Já tivemos na gestão de Schmidt 3 conselheiras, na de Marcelo Sant’Ana 9 conselheiras e na atual 5 conselheiras, mas 2 renunciaram. Percebe-se que já houve uma participação maior de mulheres, mas confio no crescimento da participação feminina, já que, com a cota de 20% estabelecida no atual Estatuto do Clube, essa participação deve aumentar, consideravelmente, nas próximas eleições para o Conselho Deliberativo (2020/2023). Essa participação ativa na vida do Clube abre um espaço de conquistas e me sinto muito bem em dar continuidade ao que foi iniciado por outras Conselheiras em gestões passadas, para que outras mulheres sintam que podem e devem ser parte atuante na Casa Legislativa do Esporte Clube Bahia.

– Como é sua relação no grupo que faz parte? 

Andreia Cerqueira (Mais Bahia) – Fantástica. Tenho pouco tempo de ingresso formal no grupo, apesar de já conhecer alguns integrantes há bastante tempo, inclusive do período em fui conselheira. Temos afinidades de ideais e de valores, o que torna tudo muito mais fácil. É um grupo com história e atuação marcantes na luta pela democracia no Bahia e reúne nomes dos mais representativos da política do Clube. É uma honra e um privilégio ter sido convidada a integrar um grupo tão especial e tão atuante.

Fernanda Tude (100% Bahia) – Sou integrante da coordenação e procuro ter papel bastante destacado. Por atuar na área de marketing, sou responsável pelo apoio das ações do grupo nessa área, e esse ano estou pela primeira vez concorrendo a vaga do conselho em posição de possibilidade de me eleger.

Tatiana Nunes (Simplesmente Bahia) – Faço parte de um grupo que tem como principal objetivo ajudar o Bahia. Minha relação com este grupo é de parceria e de muita admiração.

Virgínia Mendes (Bahia de Todos e Todas) – Somos um grupo novíssimo!!! E a minha relação no grupo que faço parte é excelente!! O lançamento da pedra fundamental teve a minha participação e de mais 10 homens, um verdadeiro time de futebol. rs Lá no grupo “O BAHIA DE TODOS E DE TODAS”, por ser, por enquanto, a única mulher na coordenação, exerço a função de líder e muitas das decisões que já tomamos foram colocadas por mim em votação e por unanimidade acatadas. Fico contente também em dizer que, com a formação da chapa para o CD, já agregamos outras mulheres, tão engajadas quanto eu nas decisões do grupo.

– O que você enxerga para o futuro da mulher na política do clube?

Andreia Cerqueira (Mais Bahia) – Enxergo todas as possibilidades. Todas. As gestões anteriores nunca deram espaço para a participação feminina: não tivemos até hoje mulheres na presidência, na vice-presidência, ou ainda ocupando cargos de diretoria na área administrativa-financeira, jurídica e marketing. Não temos mulheres na área de preparação física ou na área do futebol de base, e não faltam profissionais competentes e capacitadas em qualquer um dos setores citados, e também dos não citados, que possam fazer um trabalho de excelência no Bahia. O que falta é termos uma gestão com coragem de romper a barreira do preconceito. Estarei sempre lutando pela ampliação do espaço da mulher na sociedade, porque essa é uma conquista que ainda está longe da plenitude. Lugar de mulher é onde ela quiser estar, inclusive num clube de futebol!!!

Fernanda Tude (100% Bahia) – Enxergo que é um caminho sem volta a participação da mulher em todos os setores da sociedade e na política do futebol, apesar de achar que as coisas deveriam estar mais aceleradas, vejo com bastante otimismo, com a esperança de cada vez mais conquistarmos um espaço igualitário.

Tatiana Nunes (Simplesmente Bahia) – Penso que as mulheres estão muito mais interessadas e participativas no futebol, bem como na política do seu clube. Assim, no futuro, visualizo um conselho com muitas integrantes e também, quem sabe uma futura Presidente!?

Virgínia Mendes (Bahia de Todos e Todas) – Apesar de todas as barreiras, como já falei, sou bastante otimista e acho que, com a aplicação das cotas para as mulheres, já sentiremos os efeitos no próximo quadro de Conselheiras do Conselho Deliberativo. Acredito, também, que a próxima Diretoria Executiva irá incentivar a associação da mulher, como uma forma de trazer mais a participação feminina para perto do Clube e, quem sabe também, para perto da participação do CD, tendo em vista o grande número de mulheres que frequentam o estádio nos jogos do Bahia. Já estava observando antes da suspensão dos jogos na Arena que as mulheres estão indo sozinhas e lá encontram amigas e até mesmo fazem novas amizades, comentam o jogo e vibram muito na hora dos gols, e isso é muito positivo, porque vamos desmistificando a participação da mulher no mundo do futebol. Espero que, num futuro muito próximo, mulheres exerçam cargos da Diretoria Executiva, como já ocorreu em outros Clubes do Brasil. E vamos lá, mulheres, fazer a diferença por um Conselho Deliberativo atuante e autônomo!

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