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O tempo faz da vida uma carniça*

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Recomendo uma leitura sobre a atuação de criminosos no futebol conduzidos pela CBF e gerido pela FIFA, a grande pilantra do futebol mundial. Dito isso, apresento a você da arquibancada a resenha do excelente livro POLÍTICA, PROPINA E FUTEBOL, do jornalista Jamil Chade, numa investigação minuciosa, apresenta a interferência do padrão FIFA, colocando em risco o esporte mais popular do planeta.

Embora tenhamos assistido as prisões de José Maria Marin, malufista histórico, sinônimo de bandido, preso nos EUA acusado de diversos crimes, o dirigente da FIFA sempre esteve ligado aos que procuram a ocasião de um milhãozinho a mais.  Negociando com promotores acordos de sua delação, Marin, se dispôs a devolver aos cofres americanos quatorze milhões.

José Maria Marin, foi jogador do São Paulo Futebol Clube.  Adepto da ditadura, se tornou malufista e, enquanto esteve na política, Marin fez inúmeros discursos defendendo ou elogiando a atuação dos militares e repressores do regime. Em 1975, dois pronunciamentos do cartola questionando a TV Cultura, dizendo que ela não retratava o governo corretamente, são apontados como o estopim da morte de Vladimir Herzog — o jornalista da Cultura era comunista, foi preso, torturado e assassinado na sede do DOI-Codi, órgão ligado ao Exército Brasileiro.  No fundo a imagem do governador Marin, com o último general presidente João Figueiredo.

Seu outro parceiro e controlador dos campeonatos, jogos e da liga americana de futebol, J. Hawilla, começou sua carreira no esporte como repórter de campo ainda nos anos 1970. No fim daquela década, depois de dirigir a área de esporte da rede globo, ele foi demitido por ter aderido a uma greve e chegou a vender cachorro-quente. Mas encontraria um nicho esportivo que o tornaria milionário: o marketing esportivo.  O investimento inicial, de US$ 4,5 milhões, foi rapidamente recuperado quando Hawilla cobrou US$ 450 mil de cada um dos dez times que passaram a fazer parte da liga. São contados casos de propina patrocinados por Hawilla envolvendo milhões de dólares. O departamento de justiça dos EUA alertou em seu indiciamento que a CBF havia fechado com a Nike um acordo milionário, que previa um pagamento extra de US$ 40 milhões, em uma conta na Suíça, para a Traffic, empresa de J. Hawilla.  No total, o contrato estava avaliado em US$ 160 milhões na Suíça, para a Traffic, considerado o maior acordo de marketing da história do futebol. Um dos homens que mais se beneficiaram com esse acordo foi o chefe da Nike no Brasil, Sandro Rosell i Feliu. Uma década depois de fechar o contrato Nike-CBF, ele seria eleito presidente do Barcelona FC. O empresário se tornou milionário a ponto de fazer um acordo com os promotores e devolver aos cofres da receita nos EUA, US$ 150 milhões de dólares.

São numerosos os casos esclarecidos de compra de resultados, a venda de locais em que se realizarão as Copas do Mundo, suborno, contas em paraísos fiscais, viagens, festas em que dinheiro, bebida e acordos são servidos antecipadamente. Blatter apresentou num congresso da entidade, as contas e declarou uma receita recorde de US5,7 bilhões graças ao sucesso comercial da Copa do Mundo no Brasil. Como esses detalhes sobre os esquemas de propina chegaram às mãos do FBI?  O dirigente Charles Gordon Blazer, Chucky, dirigente americano por mais de dez anos, controlou o futebol nos EUA e passou a ter influências na FIFA.  Fez um acordo de premiada com o FBI e passou dois anos gravando reuniões e tomando notas dos encontros, com a finalidade de evitar uma sentença de 75 anos de prisão, depois que o fisco americano, encontrou seus crimes.

Alguns foram registrados em contratos como quando foi secretário geral da CONCACAF, assinando um contrato consigo mesmo,  um acordo para que a entidade bancasse todas as suas despesas pessoais incluindo um aluguel de um aluguel de quase US$ 20 mil por mês de um apartamento em Nova York e gastos de mais de US$ 200 mil apenas em 2011. Reconheceu em juízo que recebera um total de US$ 11 milhões em propinas pelos votos para as Copas de 1998 e 2010. Passou a ser delator, tendo recebido um molho de chaves, com um gravador projetado especialmente para sempre gravar as reuniões da entidade.  As escutas começaram no fim de 2011 e ficaram concentradas na gestão de José Maria Marin e Marco Polo Del Nero na direção da CBF.

A entidade possui um amplo perfil de desvios de dinheiro de corrupção, um dos casos mais escandalosos de desvio de dinheiro teria ocorrido com Manilal Fernando, ex-membro do Comitê Executivo da Fifa e presidente da Federação de Futebol do Siri Lanka. Ele simplesmente teria usado a verba destinada as vítimas do tsunami na Ásia para enriquecimento pessoal. Outro dirigente, vice-presidente da FIFA, é suspeito de ter desviado recursos em dinheiro doados para as vítimas do terremoto no Haiti. O país sofreu em 2011 um dos piores terremotos da história, que deixou mais de 200 mil mortos, 250 mil casas foram destruídas e 30 mil prédios comerciais desabaram.

Uma investigação conduzida pelo procurador Thomas Hildebrand, evidenciou um esquema de corrupção na FIFA desde os anos 1970, quando Havelange assumiu o poder.  Testemunhas contam que a empresa da Fifa foi usada como caixa 2. O dinheiro vinha, em grande parte, de empresas que pagaram pela transmissão das imagens das Copas. No caso do Brasil, o valor do contrato era de US$ 220 milhões. Outros contratos chegavam a US$ 750 milhões. A defesa de Ricardo Teixeira e João Havelange alegou para a justiça da Suíça a impossibilidade da implementação da proposta que os cartolas restituíssem US$ 2,5 milhões aos cofres da organização. Os advogados da Fifa apresentaram o argumento de que a maioria da população dos países da América do Sul e da África tem nos subornos e propinas parte de sua renda normal.

Durante a década de 1970, Blatter e Havelange perceberam esse papel estratégico que a Fifa poderia ter no cenário político internacional. O mundo vivia a era da descolonização da África e da Ásia. Habilidosa, a entidade procurou cada novo Estado para fazer uma proposta simples: nenhum país é soberano de fato se não contar com uma seleção de futebol que aglutine o sentimento popular e nacionalista. Ter um assento na ONU é importante, mas ter uma seleção na Fifa é fundamental.

Com a ajuda da Adidas, a Fifa ajudou a criar federações nesses novos nichos, apoiou seleções, deu uniformes e organizou jogos. Mais tarde abriu vagas na Copa do Mundo para esses países, e Havelange e Blatter criariam sólidos laços de amizade com a elite local. Com isso, a Adidas ganharia novos mercados e a dupla de dirigentes somaria fiéis escudeiros.

O caso mais escandaloso envolvendo Copa do Mundo, ocorreu na Argentina. O time da casa, que vivia a pressão de um dos piores regimes militares da região, chegou à final depois de ser amplamente beneficiado na escolha dos grupos, locais de jogos e, claro numa diferença de gols que deixou muita gente intrigada. Para disputar a final, os argentinos precisavam vencer o Peru por 4 x 0. Qualquer resultado inferior daria a vaga ao Brasil para enfrentar a Holanda na decisão. Apesar da boa equipe peruana, o jogo terminou em 6 x 0 para os argentinos, o que alimentou por décadas a especulação de um acerto financeiro entre os dois times. Em 2012, um juiz argentino, Norberto Oyarbide, abriu em 2011 investigações sobre o ex-ditador peruano Francisco Morales Bermúdez e pediu sua prisão por crimes como sequestros e assassinatos. Na copa de 1978 havia sido pactuada entre dois ditadores do Peru e argentina, um acordo de cooperação entre os governos. De acordo com essa versão, o ditador argentino Jorge Videla aceitou receber treze prisioneiros peruanos que, em Lima, lideravam greve para derrubar o regime de Morales Bermúdez. Esse acordo no âmbito do Plano Condor, uma aliança entre os serviços secretos dos regimes do cone sul durante os anos 1970 com o objetivo de suprimir dissidentes em todo o continente. Em troca, o argentino solicitava que os peruanos deixassem a Argentina vencer a partida do Mundial.  Até hoje o ex-senador Ledesma insiste que sabe dos detalhes da história porque foi um dos prisioneiros da troca ocorrida em 1978. Naquele ano, Ledesma foi sequestrado pelo regime peruano. O livro revela com detalhes o uso da tortura na escola de Mecânica Armada (ESMA), em Buenos Aires.

O autor ainda narra dois episódios de roubo na partida, decidida pelo cartola Abnel Gnecco, diretor da Escola de Árbitros da AFGA e representante da argentina no Comitê de Arbitragem da Conmebol, em 17 de maio de 2013 Grondona comemorou a derrota do Corinthians diante do Boca Juniors. O argentino insinuava que a escolha do árbitro tinha sido dele, e com resultados positivos. Naquele jogo, o time brasileiro foi eliminado nas oitavas de final da Libertadores. O juiz era o paraguaio Carlos Amarilla, duramente criticado por sua atuação contra o Corinthians. Outro caso que o cartola se orgulhava, era contra o Santos de Pelé.

No Brasil a pouca-vergonha foi total, não avanço em muitos detalhes para não prejudicar a sua leitura, mas posso citar como exemplo que a própria Fifa organizou a venda de ingressos no mercado negro brasileiro, os ingressos para os três primeiros jogos da Alemanha na Copa, com valor de tabela de US$ 190, eram vendidos por US$ 570, com total conhecimento do dirigente Jerome Valcke. Para os jogos das oitavas de final, ingressos de US$ 230 eram vendidos por US$ 1,3 mil. Dessas entradas, cinquenta eram para jogos em São Paulo, na Arena Corinthians, onde o Brasil estreou na competição contra a Croácia. Cada um dos cartolas ganhou US$ 114 mil pela venda dessas entradas para apenas os três primeiros jogos da Alemanha na Copa. O empresário Benny Alon da JB marketing, garante que o dirigente francês teria lucrado milhões ao final do processo: “Ele teve mais de 2 milhões de euros em lucros”.

A Copa no Brasil foi preparada com dinheiro público, com empréstimos feito aos estados, em uma condição extralimite.  Isso significava que não fossem contabilizados no cálculo do limite de endividamento dos estados nas negociações de outros empréstimos. Quase sete anos depois da escolha do Brasil para sediar o Mundial e do início das obras os números mostram que CBF não foi capaz de fazer uma Copa sem dinheiro público. Dos R$ 8,9 bilhões usados nos estádios, o BNDES financiou R$ 3,9 bilhões. Foram R$ 400 milhões para o Mineirão, R$ 311 milhões para a Arena Pantanal, R$ 352 milhões para o Castelão, R$ 360 milhões para Manaus, R$ 383 milhões para Natal, R$ 400 milhões para o Maracanã, R$ 323 milhões para a Fonte Nova e R$ 124 milhões para Curitiba. No caso do estádio Beira-Rio, o empréstimo foi bem menor, de R$ 87 milhões. Mas o local só foi erguido graças a outros R$ 87 milhões do Banco do Brasil e R$ 87 milhões do Banrisul, todos bancos públicos.

É importante notar que a constituição foi alterada, para que se tornassem mais flexíveis aos fornecedores para as obras, que se cumprissem os passos da construção dos estádios. A copa do Mundo não estaria completa sem outro mecanismo fosse acionado: a isenção milionária de impostos, que beneficiou todos os envolvidos no evento, menos os cidadãos brasileiros.

No total o Brasil deixou de arrecadar mais de R$ 1,1 bilhão em impostos a começar pela Fifa: essa isenção é a principal exigência que a entidade faz a todos países que pretendem sediar uma Copa. Assim a Fifa deixou de pagar R$ 558,83 milhões apenas em taxas federais. Os benefícios começaram já em 2011 e, pelo acordo, acabariam apenas após a Copa. Em 2015, a Fifa ganhou isenções avaliada em mais de R$ 55 milhões.

Em todas as manobras para roubar dinheiro público, os cartolas conseguem se aprimorar. Este foi o caso do tesoureiro da Conmebol, o Boliviano Carlos Cháves. Em julho de 2015, Cháves foi preso, indicado pelo ministério público de seu país por ter desviado dinheiro de um jogo beneficente entre Brasil e Bolívia, em abril de 2013. A partida tinha o objetivo de arrecadar dinheiro para compensar a família de um garoto, Kevin Espada, morto por um rojão que teria sio lançado por torcedores do Corinthians na partida válida pela Taça libertadores contra o time boliviano do San José. Mas a bilheteria, que rendeu US$ 550 mil, não chegou à família em sua totalidade. Os pais de Kevin receberam apenas 5% do valor prometido e o restante desapareceu. Manifestações públicas contra a gastança de dinheiro público mobilizou muitos torcedores e cidadãos, que conseguiram distinguir entre seu papel de torcedor e o de cidadão.

Ainda são feitas muitas referências ao uso político do futebol nos países, com destaque dramático para a história do time do Spartak, jogando em casa, em Moscou. O adversário era o Dínamo Tbilisi, da capital da Geórgia, exatamente a região de onde vinha o ditador Joseph Stálin. Uma vitória daria à equipe um lugar na final, e a tensão era escancarada, tanto em campo como nas arquibancadas. Após noventa minutos, o resultado não surpreendeu ninguém. O Spartak, que entusiasmava multidões derrotou o Tbilisi por 1 x 0, para delírio de seus torcedores do chão das fábricas soviéticas. Mas o gol foi considerado polêmico, pelo menos pelas autoridades e pela polícia secreta de Stálin.

Obrigados a realizar nova partida com o Dínamo, o time do Spartak, venceu novamente por 3 x 2. No dia seguinte, as autoridades optaram por uma decisão ainda mais drástica: mandaram prender Nikolai, fundador do time, com base em acusações feitas dois anos antes, de que o jogador e líder promovia um modelo de vida “antissoviético”, crime que até o fim do bloco comunista ninguém conseguiu explicar o que seria.  O incidente deixou claro que, para o Kremlin, o Spartak era um inimigo tão odiado quanto um dissidente em busca de liberdade de expressão em um dos regimes mais violentos da história. Nikolai Starostin, fundador, jogador e técnico, tinha o amplo apoio dos torcedores de Moscou, nos anos seguintes, Nikolai e seus irmãos foram condenados e enviados a campos de trabalho forçado. Eles só sobreviveram porque, ao chegarem a esses locais, eram reconhecidos pelos demais prisioneiros e pelos guardas como grandes jogadores, o que lhes garantia acesso alimentos e menor chance de serem torturados.  Uma leitura lenta, deliciosa e imperdível.

POLÍTICA, PROPINA E FUTEBOL, Jamil Chade, Editora Objetiva.  O autor é correspondente do Jornal O Estado de S.Paulo na Europa desde 2000. Já cobriu três copas do Mundo, além de jogos Olímpicos e Eurocopas. Chade vive em Genebra Suíça, e é pai de dois são paulinos.

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Comentários

  1. Mirinha Facchini disse:

    Muito bem escrito. Esclarece como funciona a maquina do dinheiro nas entidades do futebol. Valeu!

  2. Antônio Carlos dos Santos disse:

    Diante de tudo! o que nos resta para acreditar? Tempos difíceis.

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