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Todos os caminhos levam ao futebol

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Como dizia o poeta de rua “todos os caminhos levam a Sé” e foi lá que combinamos de nos encontrar. Um atleticano, um botafoguense e um torcedor do Rio Preto. Parece até piada, mas não é. Cada um se mudou para a capital paulista fazia pouco mais de 2 anos e calhou de nos tornarmos bons amigos em bancada. Os três tinham em comum o amor incondicional ao clube e uma paixão de altos e baixos com o futebol. Eu preciso frisar novamente o amor incondicional, pois era uma terça-feira começo de noite calorenta que íamos assistir um Lusa x Galo pelo brasileirão da série B.

O metrô não estava cheio e conversávamos sobre futebol. Um ou outro atleticano entrou no vagão e descemos todos na estação armênia. Caminhamos em silêncio pelas já escuras e mal iluminadas ruas de São Paulo. O rio Tietê passava silencioso ao fundo enquanto os carros ininterruptos gritavam na marginal. O cheiro de gordura no carvão, calabresa, cerveja e mijo anunciam o Estádio do Canindé. Um dos melhores e agradáveis estádios para se assistir futebol. A fuligem se misturava no ar com o sereno e seguimos calados pela barulhenta metrópole. As filas estavam dispersas em 3 pequenos buracos na parede protegidos por uma grade vermelha envelhecida. Com bilhete na mão passamos pela revista desinteressada do PM que conversava com seu companheiro ao lado. Um senhor recolheu os ingressos avisando diversas vezes que a catraca não estava funcionando. O ritual para entrar em um estádio se encerra nos banheiros abandonados à própria sorte. Pronto! Agora seguimos aos grandes degraus de concreto molhado que formam as arquibancadas. Tudo era muito agradável e familiar como deveria ser.

Naquela época eu tinha inventado de parar de fumar e a ansiedade apertava forte no estômago. Apesar de liderar o campeonato o time não se comportava bem fora de casa. O estádio não estava cheio, tinha lá suas 3 mil pessoas, sendo uns 500 atleticanos. A torcida fazia seu papel de visitante, provocadora e desprendida do resultado em campo. Gritar, xingar, pular e gesticular era uma terapia barata. Outro senhor na casa dos seus 60 e tanto carregava uma grande sacola em cima de seus ombros, como um papai Noel dos trópicos, ou um atlas brasileiro. Seus ralos cabelos brancos e sua barba por fazer davam o aspecto de um trabalhador resoluto. Atrás dele seguia um moleque de cabelos pretos e inquieto. A toda hora chamava seu vô e olhava para o campo, arquibancada, céu, degraus e tropeçava. O avô gritava a plenos pulmões suas rimas duvidosas:

– Amendoim! Olha o amendoim! Amendoim do HE MAN, comeu fez neném. Amendoim em promoção, comeu furou o calção.

O juiz apitou, a bola rolou e eu só pensava que um cigarro faria bem. O primeiro tempo foi da Lusa, 1 x 0, gol de cabeça do zagueiro Leonardo Silva. Sim, aquele mesmo abençoado, pessoa de feitos notáveis no Galo uns 7 anos depois desse jogo. O intervalo era hora de dar risada, pois as figuras estranhas davam as caras. Um rapaz magro e narigudo encostou do nosso lado e logo disse como se fosse um amigo de infância:

– Márcio Araújo e Bilú na volancia não dá, assim a gente não sai da série B.

– Agora você foi esperto. Os dois vão fazer gol. – disse o rio-pretense.

– Isso só funciona se você for sincero na reclamação. – disse o botafoguense.

– Fui sincero. Não tem coisa pior no Galo do que Márcio Araújo e Bilú. Só o Tite, aquela desgraça que acabou com a gente ano passado. O meu amigo, quer um cigarro? Você tá com cara de que precisa de um.

Aceitei apressado, amanhã eu paro de novo. A partida recomeçou desinteressante, sem jogadas verticais, só o sonolento e disputado jogo de série B. Márcio Araújo empatou e foi só, o jogo seguiu meia boca até o fim. Eu pensava quem tinha sido o pé frio que avacalhou o Galo hoje, o botafoguense ou o rio-pretense. Ficamos na bancada até as luzes apagarem e os PM’s nos enxotarem de lá. Nós prolongávamos o tempo dentro do estádio. Imaginando situações impossíveis, revisando gols perdidos, fazendo contas, lamentando e criando esperanças. Viver ali atrás do gol era um mundo à parte.

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Comentários

  1. Antonio Candido F Girard disse:

    Parabéns Guilherme ! Adorei.

    1. mm Guilherme F. Leite disse:

      Obrigado.

  2. Zenólia disse:

    Gostei demais da mistura entre paixão pura e narrativa. Você tem um estilo bem intimista e único de escrever, Guilherme.

    1. mm Guilherme F. Leite disse:

      Obrigado. GAAAAAAAALOOO!

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