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A democratização do Esporte Clube Bahia

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Créditos: Ricardo Cardoso/Gazeta Press

Fundado em 1931, o Esporte Clube Bahia tem em sua história uma trajetória vencedora, de muita superação e conquistas marcantes. Clube nordestino que fez parte do primeiro escalão do futebol brasileiro, conquistando o título brasileiro duas vezes e montando equipes competitivas, vê no final da década de 90 e começo dos anos 2000, o pior período de sua história. Em 1997 foi rebaixado pela primeira vez.

Inicia-se então, um período de altos e baixos, com pequena recuperação em campo e retorno a primeira divisão, seguida de novo rebaixamento em 2003. Vê-se então num ciclo de descaso, desorganização e abandono, culminando com a queda para a série C em 2005 e agravamento da crise financeira, vexames de desclassificação, crescimento do rival e goleadas. Era um cenário caótico, sem perspectivas de mudança. Diversos protestos marcam esse período que vão desde o público zero, onde os torcedores sempre conhecidos por seu apoio incondicional e presença massiva nos estádios, optam por não entrar para os jogos, organizam passeatas, até a formação e fortalecimento de grupos para lutar pela democracia. Em 2003 houve o surgimento da ABL – Associação Bahia Livre, e em 07 de junho de 2008 surge a RT – Revolução Tricolor.

A pressão aumenta, mas até pela inviabilidade financeira para associação, por desconhecimento, vez que a transparência não era característica das gestões e resultados em campo poderiam ser bem ilusórios, e a ausência de força política dentro e fora do clube, o movimento democrático acaba perdendo força com grande parte da torcida. Em 2009, Marcelo Guimarães Filho assume o clube com a promessa de modernizar e renovar a instituição que se distanciava cada vez mais do seu passado vencedor.

Pouco mudou apesar de alguns investimentos físicos na parte estrutural do Fazendão, de alterações nos departamentos e com a subida para a Série A. As falsas promessas de participação na vida política do clube voltaram a inflamar principalmente com a oscilação nos resultados do time, o rival se fortalecendo cada vez mais a nível estadual, a ausência de transparência, o comportamento do presidente nas redes e o endividamento massivo.

A jornalista Fernanda Varela relata em seu livro Um grito de liberdade: o processo de democratização do Esporte Clube Bahia, que o conselheiro Jorge Maia, que era sócio remido do Bahia, e mais 57 conselheiros foram impedidos de participar da reunião do Conselho Deliberativo e excluídos da lista de sócios, sem defesa, com o argumento que o clube estaria fazendo atualização e retirando falecidos, inadimplentes, pedidos de afastamento ou ausentes em três reuniões consecutivas ou cinco alternadas. Jorge Maia foi informado pelo clube que ele estava inadimplente. Como sócio remido do Bahia, não havia obrigação de pagamento de mensalidades, sendo assim, não poderia ter sido expulso. Convencido por Ivan Carvalho, ex-presidente da Associação Bahia Livre (ABL) e que lutava pela democracia, Jorge Maia então procurou o advogado Pedro Barichísio Lisboa para entrar com a ação. Barichísio, que também é torcedor do Bahia, já havia entrado com ações contra os dirigentes pedindo prestação de contas, atualização da lista de sócios e eleições diretas.

Foto: Eric Luis Carvalho/Jorge Maia e Carlos Rátis

Em 6 de dezembro de 2011, Marcelo Guimarães Filho (MGF) recebe a liminar para suspender as eleições por ilegalidade no processo eleitoral. No documento constava ainda que Carlos Rátis seria o interventor e assumiria imediatamente. Rátis foi escolhido pelo juiz Paulo Albiani por sua experiência como interventor em empresas, associações e sindicatos e por estar alheio ao que ocorria no futebol do Estado. MGF reagiu com postagem em rede descredibilizando a oposição e contatou o advogado Dylson Dórea, que entrou com recurso na madrugada do dia 7 de dezembro. O desembargador Gesivaldo Britto, durante o plantão judiciário no TJ-BA, cassou a liminar deferida, o que causou grande surpresa já que o uso do plantão é justificado em casos de emergência. O próprio desembargador foi sorteado como relator do processo, mas posteriormente afastado por ligações com MGF.

Derrubada a decisão e com um Conselho Deliberativo a seu favor, Marcelo Guimarães Filho foi reeleito por unanimidade, para um mandato até dezembro de 2014. A torcida, iludida com a subida, as poucas melhorias e temerosa com a suposta desestabilização do clube que MGF tanto ameaçava, acabou comemorando a decisão, cabendo aos grupos oposicionistas buscarem outros meios para abrir o clube aos sócios. 

O jornalista do A Tarde, André Uzeda, denunciou os gastos que estavam sendo feitos por MGF para reforçar o elenco, muito acima das possibilidades do clube, mas a mágoa da torcida ficou maior com a contratação de Joel Santana, que havia ofendido o clube chamando de “sardinha”, para ser demitido cinco meses depois. A relação estava cada vez pior entre torcida e MGF quando, em março, ele divulga a lista de conselheiros contendo nomes ligados a MGF, familiares de funcionários e pessoas que não se candidataram. A exclusão dos oposicionistas em favor de aliados e as declarações polêmicas de MGF confirmando a seletividade só reforçaram os argumentos de Pedro Barichísio que levou novamente o caso à justiça. O juiz Paulo Albiani decreta então a segunda intervenção que durou quatro dias.

Essa segunda intervenção foi recebida com surpresa pelo clube e teve grande repercussão com a torcida, pois era uma terça-feira e o Bahia enfrentaria o Vitória no domingo. MGF soube utilizar da paixão e do temor do torcedor, além da intensa rivalidade. Rátis, declarado interventor pela segunda vez, solicitou a lista de associados do clube, mas teve o pedido negado com o argumento que o computador estava quebrado, na sala, a CPU estava desaparecida. O vice-presidente jurídico do Bahia, Ademir Ismerim, já preparava recurso para entrar com efeito suspensivo contra a intervenção, com o apoio do desembargador Gesivaldo Britto. Nessa mesma tarde a liminar foi concedida e MGF voltou ao poder. Fernanda Varela detalha esse fato em seu livro, especialmente por um fato que eu, enquanto torcedora, também presenciei. MGF postou em sua conta do Twitter “Ôooo, a CPU voltouuuu!” ridicularizando a tentativa de Rátis de ter acesso a lista de associados. Em campo, o Bahia perdeu por 3 x 2. Apesar dessa derrota no clássico, o Bahia conquistou o Campeonato Baiano pela 44ª vez, em 2012, depois de 11 anos. Entretanto, o desempenho no Campeonato Brasileiro foi sofrível e o time quase foi rebaixado.

Em 2013, enfrentando novas acusações e em meio a processos judiciais diversos, MGF prometeu novamente mudanças no Estatuto. Após se reunir com o Conselho Deliberativo, a proposta era que o sócio adimplente a 12 meses poderia votar nas eleições a presidência. Já a eleição funcionaria da seguinte forma: os candidatos a presidência teriam que ser sócios, ter sido conselheiro por pelo menos seis anos e montar uma chapa que precisaria de pré-aprovação do Conselho Deliberativo. A proposta agradou e em 15 de janeiro as mudanças foram aceitas em Assembleia e a ata da reunião registrada no cartório. Porém, descobriu-se depois que o novo Estatuto não foi registrado e reconhecido no cartório, o que o tornava inválido.

A situação inflamava com o péssimo desempenho do time em campo. O Bahia foi eliminado na primeira fase da Copa do Nordeste, mas o vexame maior viria em 7 de abril de 2013, reinauguração da Fonte Nova e clássico BAVI: o time tomou 5 a 1. Perder um clássico mexe bastante com os brios do torcedor, e essa goleada motivou o publicitário Sidônio Palmeira, dono e presidente da Leiaute, uma das maiores agências de publicidade da Bahia, a organizar um movimento pedindo democracia no Bahia. Instigando alguns membros de sua equipe, torcedores do Bahia, surgiu então o Bahia da Torcida. Esse campeonato teve ainda o vexatório 7 a 3, que fez a torcida perder de vez a paciência para as falsas promessas de democratização.

O projeto do movimento foi apresentado aos oposicionistas de MGF, bem como houve uma tentativa final de negociação para a democratização ocorrer de forma amigável. Houve algumas acusações graves por parte de MGF acusando Sidônio de utilizar o governo do Estado (Governador era Jaques Wagner do PT) para pressioná-lo, mas perdeu força quando o atual prefeito e presidente do DEM, partido de oposição, Antônio Carlos Magalhães Neto, aderiu ao movimento.

No dia 17 de maio de 2013, mesmo com algumas tentativas de desviar o foco por parte de MGF, o Bahia da Torcida foi lançado na Fonte Nova para seis mil torcedores. O movimento foi muito bem aceito e teve ampla divulgação com participação de artistas, políticos, jornalistas e ex-jogadores. MGF reagiu ao apoio dessas personalidades ofendendo, entre ela a então primeira dama, Fátima Mendonça, torcedora do clube. MGF começava a afundar.

A pressão foi aumentando com o afastamento do desembargador Gesivaldo Britto, que se afastou do processo após declarar-se suspeito para seguir no caso por motivos pessoais. Com a situação cada vez mais desfavorável, MGF contratou como seu advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, um dos maiores juristas do país. Mas quando a fase é ruim, a bola não entra. O juiz Paulo Albiani, acusado por MGF de ser incapaz de julgar o caso por agir de má fé foi inocentado por decisão unânime e retornou ao caso. Nem as tentativas de apelação para suspender o caso deram resultado. A intervenção foi decretada, novamente, em 9 de julho, por unanimidade. Caiu Presidente e todo o Conselho Deliberativo e Carlos Rátis retornou como interventor. Paris pode ter ficado perplexa, mas o torcedor tricolor ficou eufórico!

A gravidade da situação financeira do Bahia era indescritível e ainda foi realizado um saque no valor de R$ 2 milhões, no dia que o juiz Paulo Albioni determinou o afastamento de MGF. Carlos Rátis descobriu que o clube não pagava alimentação dos funcionários e jogadores há quatro meses, tinha débito com a empresa que cuidava do gramado do Fazendão de três meses, encontrou resistência por parte dos funcionários de alguns setores, precisando de auxílio da polícia técnica para acessar os computadores protegidos por senha e ter os documentos que precisava para continuar o processo de intervenção.

Rátis focou em seu papel de interventor: conseguir a lista de sócios, realizar uma Assembleia, mudar o Estatuto e ter eleições, deixando o departamento de futebol aos cuidados do diretor Anderson Barros. Ao acessar a lista de sócios, descobriu que constavam 17 mil sócios entre adimplentes, inadimplentes e falecidos, sendo necessário um recadastramento para identificar e regularizar a situação. Convocados, somente 1322 sócios apareceram, sendo que 1011 eram sócios remidos e, portanto, não pagariam mensalidade. Rátis então teve a ideia de fazer uma campanha de associação por apenas R$ 10, que teve o apoio da agência Leiaute. Dez mil torcedores se associaram em 24 horas. Com os valores, Rátis conseguiu quitar os salários atrasados.

Em 2 de agosto de 2013, o Superior Tribunal de Justiça julgou extinta a medida cautelar que pedia o fim da intervenção no Bahia e em 15 de agosto arquivou o processo. MGF nunca mais! Rátis ainda não tinha terminado. Ele divulgou a lista de funcionários do clube que constavam dez conselheiros, o que era proibido segundo o Estatuto, e duas irmãs do presidente deposto. Ficou comprovado ainda que dos 300 conselheiros, 156 jamais haviam sido sócios do Bahia.  

17 de agosto de 2013 era a data da Assembleia Geral de sócios e o objetivo era mudar o Estatuto e permitir o voto do torcedor. O atual vice-presidente, Vitor Ferraz, deu plantão no fórum, na véspera da Assembleia, para acompanhar se haveria alguma liminar impedindo a realização. E houve. Um dos conselheiros destituídos, André Americano, entrou com ação durante a madrugada para impedir a Assembleia, sem sucesso. Rátis e Ferraz agiram rápido.

Foi apresentado como proposta para compor o novo Estatuto (retirado do livro de Fernanda Varela):

– Ficha-limpa: ninguém poderia ser candidato à presidência ou a cargo de conselheiro se possuísse condenação judicial.

– Eleição direta: sócios elegem diretamente o presidente, que teria de se dedicar integralmente ao cargo e teria salário estipulado pelo Conselho Deliberativo.

– Redução do Conselho: de 300 para 100 componentes, e sua eleição seria proporcional aos votos recebidos por cada chapa.

– Maioridade eleitoral: a idade mínima para votar seria reduzida de 18 para 16 anos. A idade mínima para associação também seria reduzida de 18 para zero ano.

– Mandato-tampão: o presidente eleito durante a intervenção comandaria o clube até dezembro de 2014 e não poderia se reeleger.  

Às 17h a votação foi encerrada: dos sócios antigos, 347 foram a favor da mudança estatutária, 8 votaram nulo e 5 foram contra; dos sócios novos, 2.742 votaram a favor, 17 votaram nulo e 5 contra. Derrota retumbante de MGF.

As eleições foram marcadas para 7 de setembro de 2013, dia da Independência do Brasil. Era o início de uma nova era para o Esporte Clube Bahia. O torcedor poderia escolher presidente e vice, 100 conselheiros, definidos pelo percentual de voto em cada chapa. Nessa primeira eleição para mandato tampão 4 candidatos se apresentaram: Antônio Tillemont, Fernando Schmidt, Ruy Cordeiro e Euvaldo Jorge, que acabou desistindo da candidatura. MGF ainda tentou uma última ação para impedir as eleições, com alegação de irregularidade na publicação dos editais, o pedido foi indeferido. MGF apelou para um mandado de segurança e novamente teve seu pedido indeferido.

Em um momento emblemático para quem acompanhou todo processo, cerca de 50 torcedores deram plantão no Fórum Rui Barbosa para alertar Carlos Rátis se houvesse nova tentativa de barrar as eleições. Com urnas cedidas pelo Tribunal Eleitoral, o processo de eleição correu sem problemas acompanhado por uma comissão composta por advogados. Com 3.300 votos, Fernando Schmidt foi eleito Presidente do Esporte Clube Bahia até o fim de 2014. Antônio Tillemont teve 1.164 votos e Ruy Cordeiro teve 468. Para o Conselho, a chapa “Diga Sim ao Novo Esquadrão” teve 3.460 votos, o que correspondeu a 72%, garantindo 72 vagas. Os outros 28% (1.358 votos) foram para a chapa “Virada com Transparência”.

O torcedor pôde enfim respirar. O clube percorreu um longo caminho de reconstrução com seu torcedor sendo protagonista dessa nova história. É extensa a lista de irregularidades e do quanto o clube foi lesado, sete anos depois e ainda temos dívidas desse período. O foco maior nesse texto foi o processo de democratização tomando como base, principalmente, o livro da jornalista Fernanda Varela, Um grito de Liberdade: o processo de democratização do Esporte Clube Bahia, disponível aqui

A emoção de poder participar do processo eleitoral do nosso clube é indescritível. É preciso que o torcedor entenda que não existe caminho fácil ou garantido. O clube precisa do seu torcedor, cuidando, lutando, participando ativamente da vida política do clube. O nosso hino já diz: “Somos a Turma Tricolor, somos a VOZ do campeão, somos do povo um clamor, NINGUÉM nos vence em vibração!”. Sejamos então a voz mais forte do Bahia!

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