HOME CLUBES PRINCIPAL COPAS MUNDO DO FUTEBOL FUTEBOL FEMININO MERCADO DA BOLA CULTURAL CONTATO

 

 

SERIE A

SUDESTE

NORDESTE

SUL

CENTRO-OESTE

NORTE

Águas de Março

Card image

Créditos: Foto: Pedro Souza / Atlético

Como diz a música, são as águas de março fechando o verão, naquele domingo no começo do mês, em especial, a chuva caia persistente, como cai apenas em Belo Horizonte. Lembro-me de acordar cedo e parar de frente pra janela olhando e pensando que aquele dia seria péssimo. Um dia chuvoso como aquele não inspira uma criança de 8 anos. O cheiro de café e pão na chapa animaram a manhã, mas meus pais pareciam inquietos. “Eu vou e ele vai comigo” foram as palavras que colocaram silêncio à mesa. O dia seguiu entediante, assisti aos desenhos matinais enquanto minha mãe impunha um silêncio ensurdecedor na casa enquanto meu pai saía para comprar o jornal de domingo.

Sentou-se no sofá e enquanto lia conversava comigo. “Sabe Gui, hoje tem jogo bom de assistir”. Como tudo que dizia respeito ao futebol prendeu minha atenção. “Hoje é dia de Galo e cruzeiro, pela final do mineiro” ele disse com a voz abafada pelo chacoalhar das folhas do caderno de esporte. “E está na hora de você decidir qual time irá torcer pelo resto da vida.” Segundo ele, eu não poderia passar a vida torcendo pela seleção brasileira ou pelo Romário. Eu tinha quase 9 anos e estava tarde demais pra não ter um time, era fundamental, disse ele.

Almoçamos tarde pra forrar o estômago, pois ele passaria no boteco do tio Alberto que ficava no caminho do estádio. Eu sempre ganhava amendoim com alho e eles discutiam como sempre. Meu pai zombeteiro ria alto, “o Cerezo veio pro nosso lado e ainda temos aquele moleque que hoje vai destruir vocês”. Eram dois opostos em tudo. Meu pai era alegre e boa praça como diziam. Já o tio Alberto, que não era meu tio de verdade era irritável e imprevisível. Um era Galo e o outro era cruzeiro, mas sempre se encontravam e conversavam por horas. “Hoje vou levar o Gui pra torcer pro cruzeiro. Estou doutrinando ele desde que nasceu, passou da hora”. Tio Alberto olhou desconfiado pra mim e disse “Você vai sair daquele estádio atleticano pra tristeza do teu pai.”

Aquilo tudo não me interessava, estava ansioso para ir pela primeira vez a um grande estádio de futebol e assim caminhamos pela chuva. Quanto mais perto do estádio chegávamos mais tomava conta de mim uma sensação nova. Cada vez mais pessoas ao nosso lado. Tomava conta uma energia diferente. Pessoas gritando coisas sem sentido pra mim, mas era melhor do que ir à missa e tenho certeza que meu pai dividia a mesma opinião. Ele costumava levar um rádio para a igreja e com um fone de ouvido pouco prestava atenção ao sermão.

Subimos alguns lances de escada de cimento e molhada pela chuva ao lado de outras tantas pessoas que continuavam a pular e cantar. De repente olho para cima e uma claridade ofusca meus olhos, o vento carrega a chuva que bate em meu rosto. O som abafado ecoa e enche o peito como um balão preenchido por ar quente. Por um breve instante fico paralisado, ouvindo aquele som uníssono “Gaaaaaaloooooooo, Gaaaalooooooo”. Meu pai me acorda do transe com um puxão de braço. “Vamos mais pra cima, pra fugir dos copos de mijo.” A cada degrau o canto parecia mais alto, pressionando meu coração e garganta. “A cachorrada já tá enchendo o saco antes do jogo, depois vão ficar caladinhos” meu pai disse sorrindo.

Paramos quase no último degrau de uma arquibancada infinita. Quando me virei para o campo o tempo parou. Nem mesmo a chuva atrapalhou a visão. Aquele campo verde, alguns raios de sol atingindo a arquibancada do outro lado. As bandeiras dançavam contra o vento, os braços se impunham contra o ar e o grito era forte, tudo em preto e branco, como assistir um filme antigo. Onde eu e meu pai estávamos sentados algumas pessoas cantavam, mas eu só tinha ouvidos para o lado de lá. “Pai, podemos ir pra lá?” assim que terminei a frase recebi um olhar fulminante e triste, acho que ia ficar de castigo depois. “Olha lá o jogo vai já começar, os times vão entrar em campo”. Ai a explosão foi única de todos os lados, senti um calor e o chão se mover pra cima e pra baixo, achei que aquilo tudo ia cair, mas todo mundo não parecia ligar para o que acontecia fora do campo. A não ser eu, que estava mais fascinado com o que acontecia atrás do gol.

O jogo estava interessante, expulsões, discussões, dribles, um jogo de velocidade e briga. Aquele moleque que meu pai falou, realmente destruiu o jogo e toda a vez que o tal Cerezo pegava na bola o estádio vinha abaixo, não sei como ele suportou aquilo. Mas a arquibancada pulsava a cada falta, a cada escanteio e a cada dividida. Eu aprendi que a alegria de quem está apaixonado ultrapassa qualquer defeito. A torcida do Galo cantava, mesmo depois de dois gols anulados, mesmo depois de duas expulsões e mesmo depois de perder.

Na saída, um silêncio meio solitário acompanhava meu pai, que mesmo tendo vencido e sido campeão não comemorou. “Pai, pai, eu tenho um time! Escolhi meu time! Finalmente”. Ele calou mais ainda se é que isso fosse possível. “Compra uma camisa do Galo pra mim?”. Eu tinha certeza que estava encrencado, mas meu pai olhou pra mim e sorriu. Hoje me perguntam o que o Galo significa pra mim eu sorrio. O Galo são as águas de março fechando o verão, o Galo é promessa de vida no coração. É a lembrança eterna do meu pai e sua paixão pelo futebol e por mim.

Ver mais

mm

Sobre o autor

Ver mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

 

Siga nossas redes sociais

© 2020 Atras do Gol é uma marca registrada da Atras do Gol Limited Liability Company.  Todos os direitos reservados. O uso deste site constitui aceitação de nossos Termos de Uso e Política de Privacidade