HOME CLUBES PRINCIPAL COPAS MUNDO DO FUTEBOL MERCADO DA BOLA CULTURAL CONTATO

 

 

SERIE A

SUDESTE

NORDESTE

SUL

CENTRO-OESTE

NORTE

A quem interessa expurgar a massa torcedora?

Card image

Créditos:

A massa torcedora tem sido, há algum tempo, objeto de preocupação constante por parte das autoridades públicas e do futebol. Essas autoridades tendem a atribuir essa preocupação ao fato de algumas das maiores tragédias do futebol mundial terem ocorrido devido à superlotação das arquibancadas. Embora o medo de que essas tragédias voltem a se repetir seja, obviamente, justificado e legítimo, é interessante observar que, com muita frequência, a superlotação foi causada por falhas operacionais, ou seja, por erros cometidos (ainda que não intencionalmente) pelas próprias autoridades. Esse foi o caso, por exemplo, do desastre de Hillsborough, que aconteceu em 1989 na Inglaterra e que resultou na morte de 96 pessoas. Mas por que essa observação é importante? Porque problematiza a ideia, amplamente difundida, de que essas tragédias devem ser consideradas um efeito direto do (suposto) comportamento destruidor das multidões.

Esse tipo de pensamento vem de longa data e é expresso, por exemplo, na obra de Gustave Le Bon (1841-1931). Contrapondo-se à tradição marxista, que entendia que as revoltas das massas poderiam levar a uma ordem social mais justa e menos opressiva, o influente psicólogo social argumenta que a multidão é, na verdade, irracional e potencialmente violenta. Aplicado ao universo do futebol, esse argumento serve, ao mesmo tempo, para legitimar a amplificação do controle da massa torcedora, uma vez que ela é tida como um risco, e para deslegitimar sua voz, uma vez que ela não teria nada de importante a dizer, dada a sua (suposta) irracionalidade. Notemos, portanto, que tal argumento é bastante útil para dar sustentação ao projeto, em andamento, de transformação dos estádios em espaços atomizados. Transformação que passa, por exemplo, pelo encadeiramento das arquibancadas e pela criação de inúmeras áreas exclusivas (e, portanto, excludentes).

Mas a quem interessa esse tipo de projeto? Principalmente, a dois atores sociais. Primeiro, àqueles que lucram com a elitização dos estádios de futebol, transformados, agora, em grandes centros comerciais. Centros destinados a consumidores e consumidoras com alto poder aquisitivo, que tendem a ter uma relação mais “passiva” e “fria” com o evento futebolístico e a rejeitar, portanto, o engajamento em uma cultura popular de torcer. Segundo, àqueles que, por diversas razões, temem que, organizada e unida, a massa torcedora possa se transformar num desafio real à ordem social vigente. Em suma: encoberto pelo véu do discurso (virtuoso) da segurança nos estádios, o expurgo da massa torcedora parece esconder o seu verdadeiro rosto: o da luta de classes.

crédito – doentesporfutebol.com.br

Sobre o autor

Ver mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

 

Siga nossas redes sociais

© 2020 Atras do Gol é uma marca registrada da Atras do Gol Limited Liability Company.  Todos os direitos reservados. O uso deste site constitui aceitação de nossos Termos de Uso e Política de Privacidade