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12/12/2018: um aniversário ao lado do Athletico – e da taça da Sul-Americana

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Créditos: Athletico Paranaense Oficial

12 de dezembro. Ou, como me acostumei a conhecer, o dia do meu aniversário. Entretanto, desde 2018 essa data ganhou um novo significado e o fato de nela eu completar mais um ano de vida já nem é o mais marcante. Isso porque naquela ocasião foi disputada a grande final da Copa Sul-Americana, onde o time que venho a torcer – o Athletico Paranaense, no momento ainda Atlético – encarou o perigoso Junior Barranquilla na Arena da Baixada. E não foi uma decisão qualquer.

Longe disso. E minhas emoções começaram a aflorar desde cedo.

Moro em Balneário Camboriú, Santa Catarina, uma cidade que fica a 227 km de Curitiba. Assim como eu, minha família é fissurada em futebol e compartilha da mesma paixão pelo Furacão. Quando o time comandado por Tiago Nunes (bons tempos…) despachou o Fluminense com vitórias dominantes e garantiu sua vaga na disputa do título, inexistia outra ideia a não ser a de comprar ingresso para todo mundo prestigiar a chance de levantarmos a primeira taça internacional da nossa história.

Não contávamos, claro, com a lentidão do sistema do clube. Após tentar de todas as formas passar pelas gigantescas filas virtuais a tempo de encontrar cadeiras vazias e fracassar na maioria delas, conseguimos apenas um bilhete. O meu. E na hora começo a quebrar a cabeça para tomar uma decisão: vou sozinho ao estádio e realizo um verdadeiro sonho de qualquer torcedor ou faço como é tradição aqui em casa e assisto à partida junto com meu pai e irmãos?

Pensamento vai, pensamento vem… angústia de sobra.

Optei por não ir. Afinal de contas, o evento era histórico demais para eu não acompanhar ao lado deles. 

Beleza, escolha feita. Cabeça tranquila? Nada disso.

Ainda teríamos alguns dias até a data do jogo, tempo suficiente para crescer a pulga atrás da orelha a cada conversa sobre o assunto. 

– “Pô, Lucas, você conseguiu o ingresso e não vai?”

– “Sabe que isso não vai se repetir tão cedo, né?”

– “Se eu fosse você, aproveitava a chance…”

É, o ponto era válido. Estávamos realmente falando de um acontecimento possivelmente único e eu poderia presenciá-lo de pertinho, ao vivo e a cores. 

(Foto: Athletico Paranaense)

Um raro amigo rubro-negro da minha região, inclusive, também conseguiu o ingresso e sairia de Florianópolis. Me ofereceu carona e eu, claro, tive que recusar.

– “Obrigado, deixa pra lá, teremos outras oportunidades…”

É a vida; a decisão havia sido tomada e eu tinha uma rotina para seguir. Além de um aniversário para comemorar quando chegou o dia 12. 

Aproveitei que era o meu dia e ao mesmo tempo o da decisão e solicitei folga do trabalho. Mas, para a frustração do meu lado torcedor, não estava viajando para a capital paranaense. Estava tentando aproveitar a manhã e a tarde enquanto contava as horas para a noite. Já desiludido com qualquer possibilidade de ir à partida, fui almoçar com a namorada em um restaurante e tentei não pensar muito no assunto. Até que chega um áudio no Whatsapp.

Claro, o amigo de Florianópolis. 

– “Estamos saindo agora. Você não vai mesmo? Se quiser, passamos aí pra te pegar.”

Passou um filme pela cabeça. A oportunidade de ver aquele esquadrão histórico do Athletico em campo. O troféu sendo levantado em meio à um caldeirão lotado. A importância de tudo isso para a mudança de patamar do clube. E o ingresso guardado no guarda-roupa.

– “Calma aí, eu já te respondo.”

Pensa. Liga pro pai. Fala com a namorada. Pergunta novamente aos amigos – mesmo sabendo a resposta deles. Pensa mais um pouco…

– “Decidi, vou com vocês. Me encontrem na marginal.”

Depois de me complicar um pouco na explicação para ela, que não tem proximidade com o futebol e dificilmente entenderia o que eu estava passando, pedi a conta, a deixei em sua casa e fui para a minha. Ah, e eles já estavam na estrada, né? Eu não tinha muito tempo e ali começou a corrida contra o relógio. A primeira…

Tomo banho, me arrumo, pego minhas coisas e vou correndo até a marginal. Em poucos minutos embarco no carro e cai a ficha: é, tô indo pro jogo. De uma hora pra outra a realidade sai da frente da televisão e vai para a frente do gramado. Em meio ao nervosismo que já consumia qualquer torcedor, os congestionamentos começaram a aparecer e levantavam uma leve preocupação.

A bola rolaria às 21h45, mas sabemos como o trânsito pode atrapalhar e ainda tínhamos que cadastrar a biometria em outro local na frente do estádio. E o medo das filas?

Anda, para, anda, para… E o tempo passava. 

Chegamos. Passamos deixar o carro no prédio de outro rapaz e fomos caminhando para a Arena, mais uns 10 minutos. Isso já era perto das 21h.

(Foto: Arquivo pessoal/Lucas Filus)

Por incrível que pareça, a parte da biometria foi tranquila; não tinha ninguém e o processo levou segundos. Mas uma fila gigantesca me esperava para entrar na Baixada. Nos separamos – cada ingresso era em um canto diferente – e fiquei ali esperando o negócio andar. Demorou, mas eu já não estava mais na esquina e visualizava as catracas. Estava perto. Pelo menos era isso que eu achava.

– “Moço, você está no setor errado. Sua fila é outra.”

Sério. Enquanto a angústia já acabava com minha sanidade mental e eu ouvia os gritos da torcida, imaginando o elenco indo para o aquecimento em meio àquela festa, eu estava no lugar errado. Não podia acreditar que ficaria mais alguns minutos em uma nova fila.

(Foto: Arquivo Pessoal/Lucas Filus)

Mas ok. Mais uma correria – confesso que ainda tive uma dose de tranquilidade pra parar e comprar uma daquelas faixas de campeão que costumam dar azar e virar piada – e cheguei na fila certa. Entrei exatamente às 21h42, três minutos antes do apito inicial. Os jogadores já estavam perfilados para a execução dos hinos.

Não tinha cadeira vazia e ninguém estava respeitando a setorização, então fiquei no primeiro lugar interessante que encontrei – bem na linha do meio-campo – e gravei um áudio que quase me complicaria mais tarde.

– “Daqui só saio depois de ver o troféu sendo levantado.”

Ah, ainda tinha uma partida pra acontecer. 

(Foto: Athletico Paranaense)

O Athletico havia empatado fora de casa na ida pelo placar de 1 a 1 e lutava por uma vitória simples. Mas nada seria simples naquele dia, obviamente. O começo foi bom e Pablo, o nome daquela Sul-Americana, abriu o marcador aos 26’ com um de seus diversos gols decisivos por aqui. A sensação ainda era de confiança até que Teo Gutiérrez deixou tudo igual aos 12’ da segunda etapa. Dali em diante o domínio foi total dos colombianos.

Total MESMO. Não víamos mais a cor da bola e a equipe bem treinada do Barranquilla jogava por música, chegando no ataque com extrema facilidade e esbarrando em Santos ou na própria falta de precisão. O resultado permaneceu o mesmo e tivemos prorrogação. O cenário não mudou e os visitantes continuaram levando perigo a cada posse de bola até que, aos 3’ do período final, Yony Gonzáles foi derrubado na área: pênalti. E não seria o último da noite.

Na hora, claro, mais um filme na cabeça. “É, não vai ser dessa vez”; “eu deveria ter ficado em casa mesmo”; “agora é voltar pra Balneário com o vice-campeonato martelando a mente…”; “como vou conseguir trabalhar amanhã?”

Mas a marca da cal tinha um plano para nós. Não tem outra explicação. Rafael Pérez havia desperdiçado um pênalti na ida e, fatidicamente, Jarlan Barrera acabou mandando a bola pro céu. Ninguém mais tinha unha pra roer e a preocupação se tornou em êxtase – momentânea. Afinal de contas, nada estava ganho e eles ainda tiveram chances pra virar. Não conseguiram e a decisão foi pros pênaltis.

Alguns conseguiam cantar e passar apoio para os jogadores, mas eu certamente não. Tinha dificuldade até pra respirar e não sei como aguentei aquela sequência de cobranças. Jonathan, gol; Raphael Veiga, gol; Bergson, gol; nesse ponto, Fuentes e Gutiérrez haviam desperdiçado e Renan Lodi teve a chance de sacramentar a conquista. Nosso garoto de ouro merecia entrar pra história dessa forma, mas bateu pra fora. 

Ok, teríamos mais duas chances. Viera marcou para o Junior e a responsabilidade ficou com o general, Thiago Heleno. Era a hora.

O coração já estava saindo pela boca quando o camisa 4 conseguiu somar todo o nervosismo do torcedor naquela pancada que deu o primeiro título internacional ao maior clube do Paraná. 

Sem mais palavras. Deixo o vídeo abaixo para ilustrar a sensação.

Naquele momento, a América do Sul estava pintada de vermelho e preto e ninguém queria deixar a Arena da Baixada. Nem mesmo quem tinha passagem comprada para a volta, no caso este que vos fala. O ônibus sairia às 2h15, era 00h35… sem problemas, né? Não havia a mínima chance de eu ir embora naquele momento e perder toda a festa. 

(Foto: Arquivo pessoal/Lucas Filus)

Volta olímpica, abraços em pessoas desconhecidas que passaram por essa montanha russa de emoções ao meu redor, fotos, vídeos, áudios emocionados de um torcedor sem voz… Os minutos passavam e, claro, eu não ligava. Era campeão! O palco foi montado, Lucho Gonzáles ergueu a taça e a missão finalmente estava cumprida. Vitória. 

Em partes.

Assim, o mais importante havia sido realizado. Nada me tiraria a êxtase e a alegria por semanas. Mas existia a obrigação de voltar pra casa, já que eu trabalhava no outro dia às 7h30. Era 01h35 e, como eu disse, o ônibus partiria às 2h15. Eu precisava dar um jeito de encontrar o meu amigo, que voltaria comigo, e ir para a rodoviária – que fica a 3,2 km do estádio. Combinamos de nos encontrar ali na frente, ao lado da famosa banca do seu Matusalém, mas era muita gente em pouco espaço e o sinal de celular já não funcionava mais. 

(Foto: Arquivo pessoal/Lucas Filus)

Esperei por um tempo, olhei por todos os cantos… nada. Era mais uma corrida contra o tempo se iniciando. Me esforcei para achá-lo, mas não tinha como. Tive que fazer o caminho sozinho e confiar que ele faria o mesmo. Me afastei das partes mais movimentadas, consegui sinal de internet e fui atrás de Uber. Ah, coitado. Quem disse que teria carro disponível? Sem chance. Táxi? Não… 

Após algumas conversas com quem estava por perto, ficou claro que eu não conseguiria transporte a tempo. A saída, então, foi correr. Literalmente. Por aproximadamente 30 minutos, já no alto da madrugada, pelas ruas e avenidas vazias da capital. Esta certamente não é uma prática recomendável, mas deu certo. Eu não corria tanto desde os tempos de escolinha de futebol – e não tinha ideia de que ainda conseguia. O que o desespero não faz…

Entrei no ônibus ali pelas 02h05. Respirei, mas não tanto. Cadê o meu amigo? 

Ele entrou no ônibus às 02h10. Agora sim, UFA! Em cinco minutos partimos, com o sorriso de orelha a orelha. 

(Foto: Arquivo pessoal/Lucas Filus)

Com a adrenalina lá no alto, dormir era inconcebível. Cheguei em casa às 6h15, tomei um banho e fui direto trabalhar – até às 17h30. Me mantive de pé apenas pela força do título; não tenho dúvidas de que eu apagaria no meio do expediente se aquele pênalti do Barrera tivesse entrado. 

Não que algo a mais importasse. A faixa de campeão – que não deu azar! – estava no peito. O resto é história. E que história.

Desde então, o dia 12 de dezembro significa muito mais do que a data do meu aniversário…

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