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Sobre a Nostalgia e os Novos Tempos

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Créditos: Arquivo Santos FC

Olá para você que chegou até aqui. Eu não sabia se iniciava minha primeira crônica com uma carta de apresentação ou se pularia esta parte, indo diretamente para o objeto direto do tema (e todos os indiretos das entrelinhas). Na dúvida, resolvi pelo remix do meio do caminho, apresentando-me entre o tal tema. Sou um cidadão de mais de quatro décadas de existência e que, a cada dia, me sinto mais velho. E isso, como era de se esperar, vem das antigas, da época de Chulapa com a 9 (patrocínio Guarujá Veículos), quando aqueles clássicos nostálgicos eram comuns: gravar fitinha K7 entre as falas do locutor da FM, fazer curso de datilografia, capa de trabalho escolar caprichada com letras desenhadas no normógrafo, provas cheirando a álcool direto do mimeógrafo, soprar o cartucho de Atari pro jogo pegar, comprar o jornal do dia seguinte ao título esperado só pra pegar o pôster… Do telefone fixo à ficha de orelhão, a lista é grande (aliás, a mania de fazer listas é outra cousa arcaica dentre meus hábitos).

Isso não é uma foto, isso é um gatilho: Saudades define.

Em novos tempos de “novo-normal”, são necessários reajustes pessoais e coletivos que só me acentuam o gosto de naftalina. Pra começar, assistir obrigatoriamente as pelejas do sofá altera tudo, do óbvio ao subjetivo: o ritual de se preparar, vestir o manto sagrado, sair de casa com antecedência (para o meu caso que moro na capital paulista, uma boa dose de antecedência quando é pra descer a serra, em contraste radical a poder ir a pé para o Paca quando a disputa é por aqui). Saudades da arquibancada, do tobogã, de tentar ver entre o vão do alambrado naquele canto torto, de cobrir os olhos com as mãos para proteger a vista do sol, tomar chuva com aquelas capas plásticas ultra descartáveis (muitas vezes, descartadas antes mesmo de vesti-las por conta dum provável rasgo só de desembalar com pressa), da torcida toda vibrando com as vitórias, sofrendo junto a cada revés. A única coisa que não sinto falta nenhuma neste quesito é apenas a revista policial e aquelas restrições bizarras correlatas: já fui obrigado a jogar no lixo diversos itens aparentemente inofensivos, mas de grande temor à corporação, do jornal desportivo impresso ao pacote de bolacha (que me perdoem os santistas nascidos no RJ, mas a crônica é minha, a bolacha também, então bixcoito só o Globo e, mesmo assim, só na areia da praia).

Por falar nisso, saudades também da gastronomia futebolística. Na entrada, aquele querido lanche de pernil ou o famoso calabresa à vinagrete, ambos temperados com o gostinho da chapa suja que dá aquele sabor característico (e, arrisco dizer, talvez até um certo grau de imunidade). Durante o jogo, um cachorro quente sem-vergonha, salgadinhos de isopor amarelado, amendoim açucarado cor de rosa. Na saída a incrível pizza de massa – quase – crua e ingredientes mínimos por singelos 10 pilas. Iguarias praticamente impossíveis de se reproduzir em casa, mesmo que se tente (muitas vezes fica bem melhor, o que descaracteriza todo amor pelo perrengue). Por outro lado, tomar breja normal durante os 90 minutos é aquele detalhe que reconforta entre tanto saudosismo doído (inclusive, imagino eu, a queda do consumo de cerveja sem álcool no mundo durante a quarentena deve ter sido gigantesca).

Da televisão, o cântico que brota da torcida vem direto do computador do DJ de cancha. Parece que todo jogo tá sofrendo severas punições e portões fechados pra geral. Só os gritos dos técnicos (geralmente carregados de palavrões inoportunos para a TV, mas que, por isso mesmo, aproximam-nos do pouco que sobrou da arquibancada) destoam daquele leleleôleleôleleô mecânico. Aqui cabe também o destaque das partidas em novas emissoras: transmissões e quase todos os profissionais mudando de canais. Uma coisa boa, a priori, visto que monopólios são sempre suspeitos – a parte do “a priori” refere-se à autoria do projeto (tudo que brota do Biroliro me deixa com os 2 pés atrás, como possíveis contratos obscuros ou ainda mudanças persecutórias fascistóides). Aliás, o próprio jogo da Selecinha dias atrás na TV Brasil e os comentários dos locutores em prol do (des)governo passando batido, enquanto que a querida Carol Solberg do vôlei praiano precisa responder na justiça por ser lúcida entre loucos, é um indício forte tanto desta neo-ditadura quanto da validade das minhas dúvidas a tudo que brota desta Bozolândia. Aproveitando o ensejo, faço minhas suas palavras de #ForaBolsonaro (só para registrar mesmo).

Com os torneios todos atrasados, ao menos o calendário daqui promete se aproximar do europeu. Pena que, por ironia do destino, na Zoorópa tá tudo uma zona também e o deles se aproxima do nosso antigo. Campeonatos se encavalam, novos meninos substituem elencos exaustos e/ou coronados. Mas, de todas as mudanças, a pior delas nem veio em decorrência da pandemia. Cria do futebol moderno pregado pela FIFA, o VAR te faz esperar até longos 5 minutos para vibrar com a rede que já vibrou, acabando com toda seqüência do fluxo. E, não bastasse o efeito brochante da necessidade de precisão de Playstation, tudo isso ainda custa uma cifra gorda (dezenas de milhares vezes 10 partidas por rodada, vezes 38 rodadas no ano, o que “dá bilhão” como diria o Ciro). E, se eu sou daqueles que pensa “quantas escolinhas dava pra fazer com um salário astronômico” cada vez que um medalhão é cogitado pro elenco, então imagina meu humor ao ver esta dinheirama toda indo para uma tecnologia que eu já encarava como desnecessária antes mesmo de ver hospitais de campanha serem montados em estádios de futebol. Aff, velho que sou, lembrei do Femônemo dizendo que não se fazia Copa com hospitais. E vou lembrando dum monte de coisa que, feliz ou infelizmente, é um dos sinais e/ou conseqüências da velhice… Ao menos, também é sinal que não sofro do mal de Alzheimer (ou, talvez, só não me lembre disso).

O Santos, às vezes, me obriga a beber. O Varzil sempre…

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Comentários

  1. Fornecedor disse:

    Tá de parabéns, começou com o pé direito!!!!

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